MANUAL
DO AUXILIAR PSIQUIÁTRICO
Tradução
e adaptação autorizadas do
“Handbook for psychiatric aides”
The Nationa Association for Mental Heath, Inc.
New York, U.S.A.
Hospital
das Clínicas – Clínica Psiquiátrica
Departamento de Neuropsiquiatria da FMUSP
Tradução:
Edith M. Natividade
Nota: o termo AUXILIAR PSIQUIÁTRICO
usado neste Manual refere-se a todas as pessoas
que trabalham junto ao doente mental, com a finalidade
de contribuírem para a sua recuperação.
1.
O Paciente e Você
Você
é Importante
No
hospital psiquiátrico – quer você
seja estudante de enfermagem, auxiliar, atendente
ou técnico – poderá exercer
grande influência no sentido de contribuir
para a melhora do paciente e sua adaptação
ao ambiente hospitalar. Ao contrário dos
médicos, supervisores e enfermeiros-chefe,
obrigados a atender a muitos pacientes e obrigações,
você está em contato diário
e constante com determinados pacientes. Daí
o representar papel importante no ambiente desses
pacientes. Você pode fazer com que o doente
se sinta estimado e útil, pode encorajá-lo
constantemente nesses dias, para ele tão
difíceis e penosos. A maneira pela qual
Você o tratar acarretar-lhe-á saúde
ou doença, alegria ou tristeza.
Seja
qual for o seu trabalho, você representa,
para o paciente, muitas coisas – enfermeiros,
guarda, companheiro, conselheiro, instrutor e
mensageiro. A maneira pela qual você desempenhar
suas funções influirá muito
sobre o paciente. Com alguns doentes, conseguirá
apenas que cuidem devidamente das suas necessidades
físicas. Quanto a outros, poderá
contribuir para que voltem curados a seus lares,
onde levarão vida normal. Na maioria das
vezes, os resultados obtidos situam-se entre esses
dois extremos. Você precisa ser realista
e compreender que não é possível
curar todos os pacientes, mas se abordar o problema
corretamente, terá oportunidade de elevar
o nível de vida de cada um dos pacientes.
Sim,
você é importante na equipe hospitalar.
O seu papel é relevante, não só
na observação como também
no tratamento. Essa importância, entretanto,
depende da sua integração na equipe,
nessa organização que luta, freqüentemente
sob condições difíceis, para
aliviar o sofrimento e restabelecer a saúde.
Para que sua contribuição seja realmente
valiosa, você terá necessidade de
lançar mão da sua personalidade,
inteligência e intuição, pois
se trata de tarefa que exige considerável
controle emocional, bondade e capacidade profissional.
Abandone
estas idéias
Ao
começar a trabalhar num hospital psiquiátrico,
talvez você tenha, acerca das doenças
mentais, certas idéias errôneas que
deve procurar corrigir. Se os seus conhecimentos
se assemelham aos da maioria das pessoas, você
terá bastante que aprender, a fim de se
por a par dos ensinamentos científicos
atuais neste campo.
| Abandonar
a idéia de: |
E
compreender: |
1.
Que a doença mental seja um mal
misterioso, que não pode ser evitado
ou curado. |
1.
Que a doença mental é um
tipo de doença que necessita de
tratamento precoce e adequado, tal qual
a moléstia cardíaca. Ninguém,
pois, deve envergonhar-se dessa doença. |
| 2.
Que a doença mental seja de uma
única modalidade e sempre muito
grave. |
2.
Que existem muitas variedades de doenças
mentais; algumas mais, outras menos graves;
algumas que podem ser tratadas a domicílio,
outras em ambulatórios e outras
ainda cujo tratamento requer hospitalização. |
3.
Que a doença mental aparece de
repente, sem aviso prévio. |
3.
Que a doença mental, na maioria
das vezes, desenvolve-se gradualmente,
com sintomas premonitórios. |
| 4.
Que as doenças mentais não
podem ser evitadas. |
4.
Que os sintomas de uma doença mental
geralmente podem ser percebidos e que,
se lhes for concedida pronta atenção,
a doença mental poderá freqüentemente
ser evitada. |
5.
Que o choque emocional – com a perda
de entes queridos, as desilusões
amorosas, os desastres financeiros e outras
desventuras – seja a causa das doenças
mentais. |
5.
Que os choques emocionais podem favorecer
a instalação da doença,
mas, em tais casos, as suas sementes já
estavam lá, embora ainda não
houvessem despontado; as causas verdadeiras
são muitas vezes ignoradas. |
| 6.
Que os “hospícios”
sejam lugares horríveis e que ser
internado num deles significa nunca mais
sair. |
6.
Que os antigos “hospícios”
se transformaram hoje em hospitais, para
onde os pacientes são encaminhados
a fim de se curarem e de receberem cuidados
médicos e de enfermagem. |
7.
Que a droga mental seja sempre hereditária
– uma tara, reveladora de predisposição
constitucional familiar. |
7.
Que algumas modalidades de doenças
mentais têm realmente fundo hereditário,
mas que a maior parte decorre de outras
causas, biológicas, psicológicas
e sociais. |
Os
Pacientes são Pessoas Humanas
É
importante que você compreenda como a ciência
considera a doença mental, pois o êxito
do seu trabalho, como auxiliar psiquiátrico,
depende mais da sua atitude do que de qualquer
outra coisa. Embora você possa iniciar o
seu trabalho sem conhecer exatamente a natureza
e os métodos de tratamento da doença
mental, importa livrar-se, desde logo, de idéias
errôneas e compenetrar-se de uma verdade
primordial: os pacientes são seres humanos.
Os
pacientes sob os seus cuidados não são
totalmente diferentes de você e, em muita
coisa, se assemelham. O paciente tem emoções
e idéias, gostos e aversões, esperanças
e receios, tais como os seus. Cada paciente tem
sua personalidade própria e, como todos
nós, passa por fases de alegria e de tristeza,
de jovialidade e de aborrecimento, de amor e de
ódio. Bem fará você, se adotar,
em relação aos doentes, o ponto
de vista recomendado pelo Dr. Earl D. Bond, no
“The Attendant”: “Se eu fosse
atendente... estudaria os delírios dos
doentes e tentaria saber no que eles diferem dos
meus próprios devaneios... estudaria a
sua obstinação e teimosia, e as
compararia com meu próprio comportamento.
Teria interesse em desvendar os mundos irreais
que os pacientes para si constroem, em saber o
que os sonhos proporcionam àqueles que
não conseguem satisfazer de outra forma
os seus anseios... observaria como, na exaltação,
o raciocínio do paciente fica a mercê
de suas emoções, e me poria a imaginar
quantos votos nas eleições são
realmente fruto da lógica e do bom-senso...
Depois de conversar com pacientes vítimas
do delírio de perseguição,
por-me-ia a pensar como qualificar muitas das
idéias de certas pessoas consideradas normais”.
 |
Todos
nós temos as mesmas tendências observadas
nos doentes mentais, com a diferença de
que somos capazes de controlar essas tendências
e mantê-las dentro de limites razoáveis,
ao passo que os pacientes perderam essa capacidade.
Objetividade
– Sensibilidade
Se
for capaz de perceber essas semelhanças
e diferenças, existentes entre você
e o doente mental, estará bem próximo
de adotar a atitude que, mais do que qualquer
outra coisa, constitui a chave do êxito
de um auxiliar psiquiátrico. Porque os
pacientes se assemelham a você, ser-lhe-á
mais fácil compreendê-los; porque
de você diferem, ser-lhe-á possível
ser objetivo e eficiente ao atender às
suas necessidades.
Durante
o seu primeiro dia de trabalho num hospital psiquiátrico,
você, se for como a maioria das pessoas,
ficará surpreso e comovido – surpreso,
com o estado a que chegaram certos pacientes;
comovido, com a sua premente necessidade de auxílio.
Passada a primeira impressão, a maioria
das pessoas não mais se surpreende e o
mesmo lhe acontecerá. A sua eficiência
será prejudicada se você for demasiado
sensível ao sofrimento dos pacientes, se
sentir-se deprimido com o estado dos doentes,
perturbado por medo ou preocupação.
É preciso, pois, que você supere
sua hipersensibilidade e se torne objetivo.
Algumas
pessoas, entretanto, inclinam-se insensivelmente
para a frieza e insensibilidade, atitude esta
que você deverá ter o máximo
cuidado de evitar. A sua eficiência será
prejudicada se você encarar as necessidades
e condições do paciente apenas objetivamente,
sem levar em consideração as suas
esperanças e sentimentos, se considerar
o seu trabalho apenas como uma tarefa qualquer.
Cedo você estará fechando os olhos
à negligencia e aos maus tratos, e logo
mais, com surpresa sua estará neles tomando
parte. Continue, pois, a ser sensível.
Atitude
Equilibrada
Você
deverá esforçar-se por adquirir
uma atitude intermediária – nem inteiramente
objetiva, nem inteiramente subjetiva ou sensível
em relação ao seu trabalho. É
o equilíbrio a Regra de Ouro; nem uma,
nem outra atitude, mas ambas fundidas numa disposição
harmônica. Ninguém lhe pode ensinar
essa atitude. Mas, você, conhecendo o perigo
de qualquer exagero, poderá adquiri-la
a força de bom-senso. Uma vez atingido
esse equilíbrio, verificará que
a maioria das qualidades do bom auxiliar psiquiátrico
se assenta nessa atitude básica.
O
bom auxiliar psiquiátrico
| Por
sua objetividade |
Por
sua sensibilidade |
Não
mais despreza ou condena os pacientes por
seus atos. |
Lembra-se
de que os pacientes são seres humanos
e os trata como tais. |
| Demonstra
confiança e habilidade profissional. |
Atende
aos pacientes, sem pressa e individualmente. |
Não
se envolve em amizades particulares com
pacientes. |
Trata
a todos com cordialidade. |
| Não
dá valor demasiado às observações
dos pacientes. |
Procura,
freqüentemente, ouvir os pacientes
com interesse especial. |
Mantém
serenidade. |
Manifesta
interesse cortês. |
| Cultiva
a paciência, que procede da compreensão. |
Cultiva
a paciência, que também procede
do interesse pelo paciente. |
Controla-se
sem sentimentalismo. |
Manifesta
simpatia e interesse. |
| É
sincero. |
Sem
tacto. |
Estas
são as qualidades importantes que caracterizam
o bom auxiliar psiquiátrico, e todas têm
sua origem numa atitude fundamental em relação
ao seu trabalho: o equilíbrio entre a objetividade
e a sensibilidade.
Sugestões
Afora
certas generalidades, muito pouco você poderá
aprender de seu mister, a não ser trabalhando
na sua própria enfermaria. Auxiliares psiquiátricos
de longa prática elaboraram a lista de
sugestões abaixo, que lhe poderão
ser úteis. Você terá de adaptá-las
ao seu caso particular e às peculiaridades
de cada doente, mas as idéias gerais são
boas e úteis.
1.
De seu paciente, seja amigo e não “colega”,
conselheiro e não feitor.
2. Procure imaginar como se sentiria, se fosse
um doente mental e estivesse num hospital psiquiátrico.
3. Lembre-se de que sugestões e pedidos
conseguem muito mais do que ordens.
4. Não se esqueça nunca de que,
apesar da aparência normal de alguns, todos
os seus pacientes são doentes mentais.
5. Aprenda a ouvir bem e com freqüência,
e também com discernimento.
6. Ao dar instruções ao paciente,
faça-o com clareza e à altura de
sua compreensão.
7.
Procure conseguir, por todos os meios ao seu alcance,
que os pacientes façam com boa vontade
o que devem fazer.
8. A princípio, sua tendência será
pensar acerca de um paciente, depois passará
a pensar por ele e, finalmente, poderá
atingir a atitude ideal de pensar com ele.
9. Seja sincero e verdadeiro, a fim de que o paciente
possa ter confiança em você. Nunca
faça ameaça ou promessa que não
tencione cumprir.
10. O tratamento dos pacientes nunca deverá
ser feito à base do suborno; recompense,
mas nunca procure subornar.
11. Procure conhecer bem seu paciente e disponha-se
a auxiliá-lo a sair do estado em que se
encontra.
12. Verifique quais os pacientes que podem cuidar
de si e quais os que não o podem; estimule
a independência, a iniciativa e a auto-suficiência,
sempre que possível.
13. Procure conhecer bem seu paciente, a fim de
que este não lhe cause surpresa. Mesmo
assim, de vez em quando, ele o surpreenderá.
Lembre-se de que, sem ocorrências imprevistas,
a rotina é monótona.
14. Respeite o paciente como a seu semelhante
– não faça observações
a seu respeito quando ele as possa ouvir, não
faça pouco caso de suas solicitações,
a menos que tenha em mira objetivo terapêutico.
15. Respeite o paciente – e também
se comporte de maneira a ser respeitado. Você
deverá ser, para os pacientes, um exemplo:
na aparência, no bom-humor, no autocontrole,
no comportamento.
16. Dê atenção a todos os
seus pacientes, inclusive aos que não requerem
atenção especial.
17. Elogie os pacientes quando conseguem realizar
algo de acordo com suas possibilidades.
18. Trabalhe juntamente com os pacientes –
a boa vontade que você manifestar em seu
trabalho lhes servirá de exemplo e os estimulará
a maiores esforços.
19. Não deixe de transparecer diante dos
pacientes reação emocional que venha
a sentir – medo, compaixão, repugnância,
irritabilidade, preocupação.
20. Nunca toque, a menos que seja absolutamente
necessário, em um paciente suscetível
de agitar-se; e, quando o fizer, faça-o
com naturalidade e tanta confiança e cordialidade
que o orgulho do paciente não se sinta
ofendido.
21. Depois de qualquer atrito com um paciente,
reflita e estude a situação, para
verificar como a poderia ter conduzido com mais
acerto.
22. Lembre-se de que os internados são
doentes e não devem ser censurados por
seus atos mórbidos, do mesmo modo que você
não pode ser censurado por espirrar quando
está resfriado.
23. Não discuta com os pacientes os seus
negócios e as suas preocupações.
24. Não se esqueça de que um bom
auxiliar psiquiátrico deve ser, para cada
um dos pacientes da enfermaria, um amigo com senso
de responsabilidade.
Quanto
a Você Mesmo
Embora
a sua atitude em relação ao paciente
tenha grande influência sobre o seu trabalho
num hospital psiquiátrico, a sua atitude
em relação a si próprio também
é importante. Você só conseguirá
incutir asseio, segurança ou quaisquer
outras boas tendências em seus pacientes
quando demonstrar possuir em si mesmo essas qualidades.
Você deve praticar o que ensina.
Boa
aparência e higiene pessoal são de
especial importância, tanto para o seu próprio
bem-estar como para o de seus pacientes. Esteja
sempre asseado, limpo e bem arrumado; troque freqüentemente
de roupas; evite qualquer vestígio de mau
odor corporal ou de mau hálito; durma com
regularidade; reserve tempo para fazer suas refeições,
sem pressa e descansadamente. Estas são
regras simples que devem ser seguidas por todos
e que são de especial importância
para o auxiliar psiquiátrico, pois se refletem
diretamente no exemplo e na paciência que
terá de dispensar aos que estão
sob os seus cuidados. Os distúrbios mentais
não são contagiosos e você
não precisa recear as infecções
comuns se se mantiver asseado e observar as precauções
especiais recomendadas pelo hospital.
Entretanto,
não lhe basta apenas saúde física.
Nada perturba tanto o ambiente hospitalar como
um auxiliar psiquiátrico cuja personalidade
seja desarmônica e impulsiva. Logo observará
que os pacientes reagem de acordo com a sua atitude,
devolvendo-lhe o que você lhes dá.
Se de manhã os tratar com impaciência
e, irritabilidade, também eles as manifestarão
o resto do dia; se você os tratar com bom-humor
e cordialidade, eles o tratarão da mesma
forma. A sua adaptação pessoal é,
pois, de extrema importância. Para mantê-la
você deverá levar, fora do seu trabalho,
uma vida equilibrada, que lhe proporcione ampla
oportunidade de recreação, com atividades
físicas, mentais, espirituais e sociais.
Esses quatro tipos de recreação
são desejáveis, embora você
possa dedicar-se mais a um deles. Conquanto tais
atividades recreativas sejam importantes, elas
não substituem um bom ajuste pessoal ao
trabalho. Por algum tempo, você conseguiria
fugir à necessidade de se adaptar ao trabalho
com os pacientes, procurando satisfazer-se em
atividades externas; mas no fim de algum tempo,
teria de escolher entre adotar as atitudes e práticas
recomendadas ou fracassar em suas funções.
Lembre-se
de que, como auxiliar psiquiátrico, você
é um elemento básico no hospital
- se você fracassar, isto se refletirá
no hospital, e a saúde física e
a felicidade de muitos serão prejudicadas.
2. Tipos
Comuns de Doenças Mentais
Conheça
seus Pacientes
A
compreensão, essencial a toda relação
construtiva entre seres humanos, é indispensável
no trato com doentes mentais. Uma das principais
obrigações do auxiliar psiquiátrico
é aprender a conhecer os seus pacientes
- não apenas de vista e pelo nome, mas
por suas reações e peculiaridades.
Convém observar que nenhum grupo de seres
humanos é tão difícil de
se conhecer e compreender como o dos doentes mentais.
Até
mesmo psiquiatras experientes, de longa prática
e com todos os recursos modernos ao seu alcance,
encontram dificuldade em obter informes precisos
sobre o passado e também sobre as condições
atuais do doente mental comum. Os psiquiatras
verificaram que as doenças mentais podem
ser classificadas em diferentes tipos gerais,
aos quais foram dadas denominações
apropriadas (diagnósticos). Os psiquiatras
lançam mão dessas denominações
não tanto para classificar os doentes mentais,
que nem sempre se enquadram exatamente dentro
dos diagnósticos estabelecidos, mas, sobretudo
para facilitar a compreensão dos pacientes
e assinalar as características principais
de suas desordens psíquicas.
Assim
é que convém dispor de, pelo menos,
alguns conhecimentos acerca dos vários
tipos de doenças mentais, pois tais noções
poderão auxiliá-los a compreender
os pacientes sob os seus cuidados. Geralmente,
você poderá saber qual o diagnóstico
estabelecido e, se souber o que o mesmo significa,
isto lhe será útil.
Descreveremos,
pois, de modo sucinto, algumas doenças
(ou diagnósticos) mais comuns nos hospitais
psiquiátricos, apresentando uma idéia
geral das causas, sintomas, reações
comuns, tratamentos especializados e possibilidades
de cura. Apresentaremos, também, algumas
sugestões sobre a melhor forma de dispensar
cuidados aos pacientes, de acordo com os vários
quadros clínicos. Como a maioria dos conhecimentos,
este só terá valor quando aplicado
devidamente - pois é possível que
tal não suceda. Este conhecimento auxilia
a compreender os pacientes e a dispensar-lhes
cuidados adequados. Nunca se deverá permitir
que informações sobre a doença
do paciente cheguem aos ouvidos dele ou de pessoas
estranhas ao hospital.
É
muito louvável a tendência moderna
da enfermagem de considerar os pacientes de acordo
com o seu tipo de comportamento (agitado, com
mania de suicídio, desasseado, deprimido,
etc), ao invés de se preocupar tão
somente com o diagnóstico. Entretanto,
como o diagnóstico é, freqüentemente,
a única informação escrita
de que dispõe o auxiliar psiquiátrico,
este manual procurará explicar-lhe, de
maneira sumária, o significado dos diagnósticos
mais comuns, a fim de habilitá-lo a melhor
compreender os seus pacientes.
Psicoses ligadas
à Arteriosclerose Cerebral e Psicoses Senis
Descrição
Geral
Estes
dois tipos de doença mental, embora não
sejam os mesmos, podem ser considerados em conjunto
porque ambos ocorrem na velhice e, muitas vezes,
apresentam sintomatologia semelhante.
A
arteriosclerose cerebral, provocando alterações
cerebrais, impede uma perfeita circulação
cerebral. Essa doença leva grande número
de pacientes idosos aos hospitais psiquiátricos.
A
senilidade é um processo normal de desgaste,
mas, quando acarreta alterações
mentais e físicas intensas, sobrevém
grave comprometimento da personalidade e quadros
psicóticos, dos quais os mais comuns são
a melancolia involutiva e a demência senil.
Causas
Na
velhice pode instalar-se a arteriosclerose cerebral,
com alterações nos vasos sanguíneos,
comprometimento do cérebro e dos tecidos
nervosos, devidos à deficiência de
irrigação sanguínea. Doenças
infecciosas agudas também favorecem o aparecimento
da arteriosclerose cerebral. A hereditariedade
e a tensão física e mental prolongada
parecem contribuir para que, no processo normal
de envelhecimento, ocorra ou não uma psicose
senil. As psicoses da velhice podem evoluir gradualmente,
tornando-se o indivíduo progressivamente
egocêntrico, sem novos interesses, lento
nas reações e contrário às
mudanças. Podem, também, sobrevir
repentinamente, em conseqüência de
um choque súbito, tal como a morte de um
ente amado. Existem quadros graves de senilidade
- doença de Alzheimer e doença de
Pick - suscetíveis de se verificarem mesmo
em pessoas de idade madura, havendo casos descritos
que surgiram antes dos 45 anos de idade.
Sintomas
Embora
os sintomas não sejam inteiramente idênticos
na arteriosclerose cerebral e na psicose senil,
são suficientemente semelhantes para que,
neste manual, os consideremos em conjunto.
| Sintomas
Físicos |
Sintomas
Mentais |
Diminuição
da força muscular. |
Irritabilidade
e obstinação. |
| Andar
trôpego e vacilante. |
Redução
ou ausência de interesses vitais. |
Diminuição
gradual da visão e audição. |
Diminuição
da compreensão. |
| Embotamento
geral da senso-percepção. |
Distúrbios
da memória, que se torna diminuída,
principalmente para acontecimentos recentes.
O velho só consegue lembrar-se de
fatos antigos. |
Estado
vertiginoso. |
Perda
do controle emocional. |
| Desorientação. |
Freqüentemente,
idéias delirantes de perseguição,
temor de “ser roubado”, impressão
de que lhe faltam ao respeito, avareza,
egoísmo, desconfiança, etc. |
| Na
arteriosclerose cerebral há maior
possibilidade de “acidente vascular
cerebral”. |
Tratamento e cura
Na
maioria das vezes, o tratamento resume-se em proteção
e cuidadas gerais. O tratamento é sintomático,
pois que essas moléstias evoluem progressivamente
até a demência final. Não
se conhecem meios de curar nem uma nem outra dessas
doenças. No entanto, uma boa enfermagem
e cuidados dietéticos e higiênicos
proporcionam a esses doentes bem-estar e sensação
de maior segurança.
Com
o aparecimento das drogas psicotrópicas,
atualmente usadas em clínica psiquiátrica,
numerosos sintomas dessas moléstias podem
ser atenuados e até mesmo superados, como,
por exemplo, agitação psicomotora,
insônia, ansiedade, entre outros.
Como
Cuidar de tais Doentes
Esses
pacientes precisam de vida bem regrada, sem muitas
modificações ou novas experiências.
Entretanto, é necessário que neles
se desperte o maior interesse possível,
e que se lhes mantenha a atenção
ocupada. Cumpre dispensar-lhes cuidados contínuos,
bondosos e atentos procurando especialmente neles
criar bons hábitos, que favoreçam
suas condições higiênicas
e físicas. Deles não se deve exigir
mais que o necessário à sua adaptação
à vida hospitalar. Faça-lhes as
vontades tanto quanto possível; se, por
exemplo, quiserem usar mais roupas que o necessário,
se acharem que vem da janela uma corrente de ar,
ou se manifestarem quaisquer outros caprichos
que possam ser facilmente satisfeitos sem prejuízo
para eles, atenda-os. Faça limpeza nos
guardados que geralmente acumulam, mas faça-o
com delicadeza. Dedique-lhes atenção
especial por ocasião do banho, tendo sempre
em mente que correm o risco de sofrer uma queda.
Os banhos de leito ou de banheira são,
por esse motivo, mais aconselháveis do
que o de chuveiro. Deve-se insistir para que vistam
roupas limpas, pois, freqüentemente se apegam
a roupas que não estão mais em condições
de serem usadas.
Pouco
se conseguirá com discussões. Controle
esses pacientes, mas de maneira a fazer-lhes acreditar
que estão fazendo a própria vontade.
Não espere que eles se lembrem das coisas,
pois a sua memória é fraca. Cuide
imediatamente dos seus pequenos ferimentos e arranhões,
pois estes, em tais pacientes, poderão
acarretar a morte. Não concorde com seus
delírios ou alucinações;
mas não os censure, nem deles faça
zombaria. Você poderá proporcionar-lhes
maior segurança, asseverando-lhes que se
encarregará de tudo - mas diga-o com sinceridade,
para que suas palavras não se tornem vazias
aos próprios sentidos embotados desses
pacientes.
Sífilis
Cerebral e Paralisia Geral
Descrição
Geral
De
todas as infecções que atacam o
homem, a sífilis é a que produz
efeitos mais devastadores quando invade o cérebro.
A sífilis cerebral e a paralisia geral
(abreviada por PG e também designada por
demência paralítica) constituem dois
quadros psíquicos comuns provocados pela
sífilis. São transtornos de base
orgânica, nos quais os tecidos nervosos
são lesados pela infecção.
Para os fins deste manual, não existe maior
interesse em esclarecer as diferenças existentes
entre os dois quadros mórbidos. São
doenças mais freqüentes entre os homens
do que entre as mulheres, e aparecem geralmente
após os 35 anos de idade. Atualmente, graças
à facilidade de se estabelecer o diagnóstico
precoce da sífilis pelo exame do sangue
e graças à generalização
do uso dos antibióticos, o combate a essa
doença se tornou muito mais eficiente,
tornando-se também muito reduzida a incidência
das formas de neurolúes. O exame do líquido
cefalorraquidiano descobre precocemente a neurolúes,
tornando o seu tratamento mais eficiente.
 |
Causas
Embora
a infecção sifilítica seja
indiscutivelmente a causa desses distúrbios,
apenas uma pequena percentagem dos indivíduos
que a contraem apresentam formas de neurolúes.
De dois a trinta anos, e geralmente de dez a vinte
anos, após a instalação da
infecção sifilítica podem
surgir as primeiras manifestações
da paralisia geral. Este longo período
de incubação da lúes faz
com que freqüentemente nos cause surpresa
a sua eclosão. A paralisia juvenil resulta
da sífilis transmitida congenitamente dos
pais aos filhos, podendo surgir dos cinco aos
vinte anos de idade; é geralmente considerada
mais grave e de pior prognóstico do que
a paralisia geral do adulto.
Sintomas
Na
sífilis cerebral, há maior probabilidade
de ser preservada a personalidade e os sintomas
são menos pronunciados do que na paralisia
geral, que é uma meningoencefalite crônica
à demência e à morte.
| Sintomas
Físicos |
Sintomas
Mentais |
Cansaço
fácil. |
Falta
de discernimento. |
| Fraqueza
muscular generalizada. |
Perda
de senso-crítico.
Puerilidade. |
Tremor
da língua, dificuldade em articular
as palavras. |
Distúrbios
da memória.
Desorientação. |
| Posteriormente,
linguagem confusa e ininteligível
(disartria e mesmo anartria) |
Freqüentemente,
idéias delirantes de grandeza,
de riqueza, de poder, de força
etc. (megalomania). |
Tremores,
dificuldades na escrita. |
Concepções
exageradas em relação à
própria personalidade. |
| Quase
sempre, rigidez pupilar ou perda do reflexo
à luz, e desigualdade pupilar (anisocaria). |
Oscilações
de humor, desde a alegria até a
depressão e a cólera.
Perda dos sentimentos ético-morais. |
Na
fase final, o paciente não pode
levantar-se da cama, descuida-se do asseio
e perde o autocontrole. |
Indiferença
e descaso pela família e pelos
demais. Na fase final, completa deterioração
mental (demência paralítica). |
Tratamento e Cura
A
doença, se não for tratada, torna-se
cada vez mais grave e acarreta a morte dentro
de dois a cinco anos. Se for tratada por meios
adequados, logo às primeiras manifestações,
pode ser detida em sua marcha. Com a malarioterapia
obtinha-se a remissão de cerca de metade
dos casos tratados. Atualmente, usa-se a penicilina
com grande êxito dando-lhe preferência
em muitos hospitais, que já dispensam o
uso da malarioterapia. Esses tratamentos eliminam
o fator causal, mas não restauram o cérebro
e os tecidos nervosos, onde já tenham sofrido
destruição, por isso quanto mais
precocemente forem administrados melhores serão
os resultados obtidos. Embora muitos desses pacientes
fiquem com deficiências permanentes, o tratamento
pode melhorar cerca de dois terços deles,
conseguindo-se que um terço volte à
vida normal.
Como
Cuidar de tais Pacientes
Esses
pacientes são difíceis de serem
tratados devido à sua irritabilidade e
ao fato de, freqüentemente, não aceitarem
quaisquer justificativas para sua internação.
Entretanto, são geralmente sugestionáveis
e, com tato, podem ser tratados mais facilmente.
Quando a moléstia estiver muito adiantada,
os cuidados consistem principalmente em: impedir
a formação de escaras, que surgem
com a permanência prolongada no leito (é
o paciente que está mais sujeito a elas);
banhá-lo e fazer-lhe massagens, para evitar
a paralisia dos pés e das mãos;
supervisionar-lhe a alimentação,
pois esse paciente engasga com facilidade a não
ser que os alimentos sejam pastosos ou líquidos;
auxiliá-lo nas funções eliminatórias,
levando-o regularmente ao sanitário ou
trazendo-lhe a comadre; evitar que o doente, nessas
condições, se entregue a atividades
que possam produzir fraturas de ossos, que se
tornam frágeis. Os paralíticos gerais
muitas vezes morrem durante ou logo após
convulsões e também são sujeitos
a derrames cerebrais, necessitando, portanto,
de cuidados especiais e de certa vigilância.
Após o tratamento médico, cumpre
despertar interesses no paciente e procurar readaptá-lo
à vida normal.
Alcoolismo - Psicoses Alcoólicas
Descrição
Geral
Estas
psicoses podem assumir aspectos diversos, dependendo
do tipo de personalidade do paciente e da sua
reação ao álcool. O Delírio
Alcoólico Agudo é o tipo mais comum.
A moderna psiquiatria considera o uso imoderado
do álcool, em muitos casos, como sintoma
de outra perturbação mental, ou
distúrbio de personalidade psicopática.
Causas
O
uso excessivo e prolongado do álcool acarreta
perturbações mentais, causadas diretamente
pela ação do álcool sobre
o organismo. Devemos reconhecer, também,
que o uso imoderado do álcool afrouxa a
tal ponto o controle do indivíduo sobre
si próprio que as dificuldades básicas,
anteriormente resolvidas com os recursos da sua
personalidade, irrompem como autênticos
distúrbios durante o alcoolismo.
Sintomas
Apresentaremos
os sintomas do Delírio Agudo e indicaremos,
também, as diferenças entre essa
perturbação e outras formas comuns
de distúrbios provocados pelo alcoolismo.
| Sintomas
Físicos: |
Sintomas
Mentais: |
Excitação,
dificuldade de ser mantido no leito. |
Ansiedade,
inquietação, medo, angústia. |
| Tremores,
especialmente na face, língua e
dedos. |
Irritabilidade,
insubordinação, agitação
psicomotora. |
Disartria,
língua saburrosa. |
Idéias
delirantes as mais diversas. |
| Perda
do apetite.
Insônia.
Podem surgir convulsões.
|
Alucinações
auditivas e visuais (zoopsias –
vê pequenos animais ou então
animais de grande porte). |
No
delírio alcoólico agudo, as alucinações
são muito intensas, apresentando o paciente
o chamado delírio onírico. Neste
delírio o doente vive como um sonho ou
pesadelo, no qual ele toma parte ativa. É
muito comum o chamado "delírio profissional",
no qual o doente age como se estivesse trabalhando
em sua profissão habitual.
Existe
também uma forma chamada psicose de Korsakoff,
que se caracteriza por distúrbios neurológicos
nos membros inferiores (polineurite), distúrbios
da memória e fabulação.
Tratamento
e Cura
A
fase aguda das psicoses alcoólicas geralmente
dura poucos dias. As psicoses alcoólicas
quando tratadas precocemente, em geral evoluem
para a cura; mas, se não lhes for dispensada
boa assistência, podem levar o paciente
à morte. Durante o período de intoxicação
aguda, é comum o aparecimento de graves
distúrbios no aparelho respiratório,
que exigem cuidados especializados. Passada essa
fase, o paciente ainda necessita de tratamento
intenso, a fim de se evitar a sua volta ao tóxico.
É, então, recomendável o
tratamento pela psicoterapia, pela hipnose, pelo
condicionamento dos reflexos. Existe também
uma série de medicamentos que provocam
reações penosas no indivíduo,
se ele ingerir qualquer quantidade de álcool.
A sua utilização, entretanto, exige
supervisão médica por não
serem destituídos de perigo.
Os
sintomas agudos dos delírios alcoólicos,
sobretudo o delírio onírico, são
rapidamente eliminados, por vezes mesmo até
de modo espetacular no caso de estados confusionais,
por intermédio de drogas psicotrópicas,
principalmente ansiolíticos, sob forma
injetável por via intramuscular.
Curas
permanentes podem ser facilitadas através
do intercâmbio de confiança e estímulo
entre ex-doentes. Como em outras partes do mundo,
existem atualmente no Brasil nas principais capitais,
organizações especializadas, como
a Associação Antialcoólica,
"A. A.".
Como
Cuidar desses Pacientes
Durante
o período de agitação, evite
qualquer medida restritiva desnecessária,
a fim de impedir que o paciente se excite ainda
mais. Procure tranqüilizá-lo com relação
ao medo que sente e às suas alucinações,
e mantê-lo vestido e agasalhado (ele é
muito suscetível de apanhar resfriados
e pneumonia). Durante a convalescença alguns
desses pacientes sentir-se-ão injustificadamente
detidos no hospital, ao passo que outros se mostrarão
prestativos e cordiais. Não contribua para
tornar sua permanência menos agradável,
mas não lhes dê atenção
demasiada, nem acredite muito em suas promessas
de regeneração.
Epilepsias
Descrição
Geral
Embora
exista desde os tempos mais remotos, a epilepsia
ainda é fonte de contínuos estudos
e pesquisas. É caracterizada por perturbações
periódicas e súbitas da consciência,
com ou sem convulsões. A tendência
moderna é considerar a epilepsia como sintoma
e não como doença. Quase sempre,
não acarreta o rebaixamento das funções
mentais - algumas das personalidades mais marcantes
do mundo sofriam de epilepsia (Cesar, Alfredo
o Grande, Napoleão, Machado de Assis, o
pintor Van Gogh e outros).
Causas
As
causas desse quadro vão aos poucos sendo
desvendadas. A epilepsia não é hereditária;
o que se transmite é a disritmia cerebral,
que constitui fator predisponente. Traumatismos
cerebrais, perturbações orgânicas
e choques emocionais são fatores que podem
acarretar a eclosão da epilepsia, se a
pessoa tiver tendência à mesma.
Sintomas
Embora
não se possa estabelecer um tipo padrão
dentro do qual se enquadram as epilepsias em geral,
o epiléptico hospitalizado é quase
sempre agressivo e egocêntrico, irritável,
pouco merecedor de confiança, egoísta
e arrogante. É viscoso, pegajoso e falador.
Os epilépticos sofrem comumente de ataques
e convulsões, outras vezes apresentam "equivalentes"
e "ausências". São também
vítimas de um estado chamado "crepuscular",
precedido ou não de crise convulsiva, o
qual é de grande periculosidade para o
doente e para os que o cercam. São comuns
os atos anti-sociais, violentos ou não,
durante os chamados estados crepusculares.
A
convulsão epiléptica segue geralmente
o seguinte curso:
1
- Fase premonitória (aura), na qual o paciente
poderá sentir náuseas, dores, odores,
zumbidos etc., soltando muitas vezes um grito
lancinante;
2
- Contração tônica, na qual
todos os músculos ficam tensos e contraídos;
3
- Período clônico, no qual todo o
corpo parece relaxar-se e contrair-se com movimentos
bruscos;
4
- Volta lenta à consciência, durante
a qual o paciente se recupera progressivamente
até chegar à normalidade. As convulsões
seguem-se, às vezes, um período
de excitação, em que o doente, apresentando-se
com um estreitamento no campo da consciência,
pode tornar-se agressivo e perigoso, apresentando-se
outras vezes em estado confusional, dito crepuscular.
Tratamento
e Cura
São
prescritos tratamentos medicamentosos, anticonvulsivantes,
dietéticos, psicológicos e psicocirúrgicos,
os quais pode manter o paciente em boas condições
e permitir-lhe adaptar-se o suficiente para levar
vida normal, a despeito do mal que o aflige.
Como
Cuidar desses Pacientes
Geralmente
é difícil lidar com esses pacientes.
É aconselhável ter-se sempre em
mente: que o doente poderá ter uma crise,
a qualquer momento; que é mais fácil
conseguir a sua cooperação com instruções
positivas do que com restrições
ou proibições; que desviar-lhe a
atenção e procurar ocupá-lo
em atividades benéficas é a única
maneira de afastá-lo de tendências
mórbidas. Se você conseguir incutir-lhe
sentimento de segurança, se conseguir convencê-lo
de que é estimado e útil, sem reforçar
sua tendência dominadora, ele poderá
ser de grande auxílio na enfermaria.
No
caso de convulsões, os cuidados devem ser
os seguintes: deixe o paciente estirado no chão
ou na cama; não lhe restrinja os movimentos;
desaperte-lhe a roupa; coloque um travesseiro
ou toalha sob sua cabeça e procure evitar
que ele se machuque. Se possível, quando
ele abrir a boca, antes da fase clônica
ou do terceiro período, introduza nela
um rolo de borracha, envolto em gaze ou toalha,
colocando-o entre os dentes, a fim de impedir
que o paciente morda a língua. Quando cessarem
os movimentos e o paciente recuperar a consciência,
coloque-o na cama, mude-lhe a roupa e mantenha-o
sob observação até que esteja
dormindo profundamente ou recupere clara consciência.
Observe então cuidadosamente o paciente,
porque, após a convulsão, ele poderá
atravessar perigosa fase de excitação.
Tente sempre observar as condições
e as circunstâncias em que se deu o ataque,
com o objetivo de evitar, se possível,
novas ocorrências. O diagnóstico
e o tratamento das epilepsias exige hoje o exame
eletrencefalográfico. Pelo traçado
obtido, o médico orientar-se-á com
relação ao diagnóstico e
ao tratamento mais indicado. Atualmente existem
numerosas drogas anticonvulsivantes e anti-epilépticas
e, por isso, o tratamento desses pacientes torna-se
cada vez mais satisfatório, podendo-se
mesmo afirmar serem raras as epilepsias que não
podem ser controladas em seus sintomas.
Oligofrenias
Idiotia,
Imbecilidade, Debilidade Mental
As
oligofrenias são enfermidades que se caracterizam
por uma deficiência global de toda atividade
psíquica. Os oligofrênicos são
freqüentemente classificados de acordo com
seu nível de desenvolvimento mental: o
idiota (1 a 3 anos), o imbecil (3 a 6 anos), o
débil mental (9 a 12 anos). A deficiência
psíquica pode ser motivada por uma série
de causas que podem ter atuado antes do nascimento
(vida intra-uterina), durante o nascimento (trabalho
de parto) e após o nascimento (vida extra-uterina).
As causas podem ser as mais variadas: hereditariedade,
alcoolismo dos pais, moléstias da mãe
durante a gestação, traumatismos
antes e durante o parto, sífilis congênita
e numerosas doenças, sobretudo moléstias
infecciosas e traumatismos que podem atingir a
criança durante os primeiros meses de vida.
Sintomas
Os
sintomas são variáveis, conforme
o grau da deficiência. O idiota não
consegue aprender a falar. O imbecil já
consegue aprender a linguagem de modo relativamente
satisfatório. O débil pode até
ser alfabetizado por métodos especiais.
As deficiências dos idiotas e dos imbecis
profundos são tão grandes que pouco
se pode esperar deles. Franco da Rocha costumava
ensinar: "O idiota não consegue entender
um recado, o imbecil vai levá-lo, mas no
meio do caminho dele se esquece, o débil
é capaz de levar e dar o recado".
Ao lado das deficiências mentais, os oligofrênicos
costumam apresentar também numerosas malformações
e defeitos físicos.
Como
Cuidar desses Pacientes
O
temperamento e as reações variam
tanto entre esses pacientes quanto entre as pessoas
normais, de maneira que você deve conhecê-los
bem, a fim de saber como tratá-los. Os
idiotas e os imbecis profundos freqüentemente
necessitam ser cuidados como se fossem criancinhas,
ainda que tenham atingido pleno desenvolvimento
físico. Você deverá ensinar
os imbecis e débeis profundos a executarem
tarefas simples e a cuidarem de si mesmos. O trabalho
manual e o serviço de limpeza exercem sobre
eles especial atração. Os débeis
e mesmo os imbecis em grau leve aprendem muito
bem a executar trabalhos manuais não complicados.
Sempre que lhes der uma instrução,
seja simples e claro, e não espere que
eles se lembrem por muito tempo das recomendações
recebidas. Os atrasados mentais educáveis,
isto é, débeis menos pronunciados
podem ser tratados, por meios psico-pedagógicos
especiais, em estabelecimentos hospitalares e
em clínicas especialmente a eles destinadas.
Os
deficientes mentais apresentam freqüentemente
episódios psicóticos, cujo tratamento
é idêntico ao preconizado para síndromes
psicóticas semelhantes, porém de
outra natureza. O episódio psicótico
é curado - a debilidade, no entanto, persiste.
Esquizofrenias
Descrição
Geral
A
denominação de demência precoce
foi primeiro aplicada a essa doença porque
se pensava que só ocorresse na juventude,
acarretando com o correr dos anos completa deterioração
mental (demência); essa denominação
foi substituída por esquizofrenia, que
significa dissolução da personalidade,
"personalidade cindida".
Esta
é uma das formas mais comuns de doença
mental, compreendendo cerca de um quinto das novas
internações e cerca de quarenta
por cento da população dos hospitais
psiquiátricos em qualquer momento dado.
Causas
Desconhecem-se
ainda, com precisão, as causas que a determinam.
Segundo alguns autores, trata-se de doença
orgânica; segundo outros, ela é de
origem psíquica, divergindo, portanto,
as opiniões a respeito. Os partidários
de seu fundo psicógeno atribuem-na ao desajustamento
progressivo do indivíduo ao ambiente. Os
que lhe reconhecem uma causa física salientam
que essa perturbação é geralmente
acompanhada de distúrbios glandulares,
má nutrição das células
cerebrais, distúrbios do metabolismo cerebral
e outras dificuldades orgânicas. É
provável que muitos fatores atuem em conjunto,
de modo obscuro, na etiologia dessa doença.
Bleuler, o criador do termo esquizofrenia, atribui
a doença a fatores orgânicos básicos
e fatores psicógenos secundários.
O aspecto biotipológico também é
importante, pois a doença atinge de preferência
os indivíduos leptossomáticos ou
astênicos (de corpo delgado), de temperamento
esquizotímico.
Sintomas
Nenhuma
manifestação física específica
é característica da esquizofrenia.
Os sintomas mentais e emocionais dessa perturbação
são graves e característicos: tendência
ao isolamento e à introversão, mau
contato com a realidade (autismo), incertezas,
dúvidas, dificuldade de escolha (ambivalência),
perplexidade, desarmonia no pensamento, ilogismos
(desagregação do pensamento). Podemos
classificar a esquizofrenia em quatro formas ou
tipos, embora estes não sejam claramente
definidos e um paciente qualquer possa apresentar
sintomas pertencentes a mais de um tipo.
Sintomas
de esquizofrenia, forma simples:
O paciente mostra-se apático, descuidado,
cansando-se facilmente.
Descuida-se de sua aparência pessoal, de
seus hábitos de higiene.
Torna-se "incapaz de pensar", de concluir
com clareza uma frase iniciada.
Fala coisas "aéreas" e sem sentido.
Permanece em mutismo habitual.
Alheia-se aos interesses comuns da vida.
A
esquizofrenia, forma hebefrênica, além
de sintomas semelhantes aos do tipo simples, manifesta
mais os seguintes:
Tendência a atitudes e expressões
afetadas.
Reações emocionais inadequadas (rir
ao falar de coisas tristes, etc).
Alucinações auditivas e idéias
delirantes.
Por vezes, depressão, tristeza, angústia.
Freqüentes crises de agitação
psicomotora.
Julga-se muitas vezes sob controle de forças
externas (tais como poderes sobrenaturais ou magnéticos).
Manifesta tendência para reações
sexuais mórbidas (homens e mulheres entregam-se
a práticas exibicionistas e eróticas).
Os
sintomas da esquizofrenia, forma catatônica,
são os seguintes (além de alguns
comuns à forma simples):
Rigidez muscular, resistência aos movimentos,
negativismo, mutismo.
Tendência a permanecer numa só posição,
como se fora uma estátua.
Tendência a repetir palavras, sons, atitudes,
movimentos, gestos etc (estereotipias).
Apesar da sua inércia, imobilidade, apatia
e abulia, o doente pode apresentar impulsos agressivos
de grande violência e completamente inesperados.
Na
forma paranóide poderemos encontrar alguns
dos sintomas que caracterizam outros tipos de
esquizofrenia, mas geralmente o que mais se evidencia
é o transtorno na interpretação
da realidade e dos pensamentos alheios. Os pacientes
desse tipo tem freqüentemente:
Idéias de perseguição (às
vezes, aparentemente lógicas).
Idéias de grandeza (julgam-se talentosos,
inventores de aparelhos fantásticos, escolhidos
por Deus, predestinados a dirigir, a fazer reformas
de toda espécie).
Essas idéias são freqüentemente
acompanhadas por alucinações.
Porte arrogante e aspecto orgulhoso, irônico,
zombeteiro.
Tend&eci |