RESUMO
Os autores
descrevem o atendimento realizado no Hospital-Dia
do Serviço de Psiquiatria do Hospital tio
Servidor Público Estadual "FMO".
Descrevem como funcionam os diversos grupos: psicoterápicos,
psicoeducacionais, de atividades e recreativos,
constituídos para o tratamento dos pacientes
internados no Hospital Dia. Relatam também
como funciona o Programa de Reabilitação
Psicossocial destinado aos pacientes portadores
de Transtorno Mental Grave e Prolongado em tratamento
no Serviço de Psiquiatria.
UNITERMOS: Hospital Dia. Reabilitação
Psicossocial. Equipe Interprofissional. Terapia
ocupacional. Psicoterapia de Grupo. Psicose. Transtorno
Mental Grave e Prolongado.
O
Hospital-Dia (HD) é a forma de internação
parcial mais difundida para tratamento de pacientes
com transtornos mentais. O surgimento de novos
HDs está diretamente relacionado ao fechamento
de hospitais psiquiátricos, resultado da
política de desospitalização,
assim como da introdução de medicações
mais eficazes para o tratamento das doenças
mentais. Não há consenso na literatura
quanto a sua definição, formulação
teórica, público-alvo e objetivos
terapêuticos. Nos atemos, neste artigo,
à descrição do modelo de
atendimento do Hospital-Dia do Serviço
de Psiquiatria e Psicologia Médica do Hospital
do Servidor Público Estadual (HSPE-SP).
O
Serviço de Psiquiatria e Psicologia Médica
do HSPE foi criado no ano de 1964, sendo que em
1965 já contávamos com ambulatório,
enfermaria, hospital-dia, oficina abrigada, constituindo
o que atualmente se denomina de Unidade Psiquiátrica
no Hospital Geral (UPHG). O atendimento, naturalmente,
é centrado no ambulatório, complementando-se,
em casos necessários, pela internação
integral em enfermaria situada no corpo do hospital-geral
ou pela internação parcial em HD3.
Até
abril de 2000, o HD funcionou junto a enfermaria
de internação integral, sem uma
programação própria. Os pacientes
permaneciam na enfermaria das 8h às 16h
e retornavam no dia seguinte. Passavam diariamente
pela consulta médica, realizavam as atividades
de terapia ocupacional (TO) juntamente com os
demais pacientes da enfermaria, não havendo
uma programação própria e
estruturada de tratamento. Em um artigo na Revista
Temas (1999), Sonenreich escreveu que: "o
HD, no HSPE, apesar de suas dificuldades, confirmou-se
como modalidade satisfatória de tratamento
e com melhores condições de espaço,
poderia ser desenvolvido ainda mais".
Desde
maio de 2000 o HD passou a funcionar em local
próprio, ocupando todo o terceiro andar
do novo prédio do Serviço de Psiquiatria
e Psicologia Médica, onde, em outros andares,
também funcionam o ambulatório,
os diversos grupos de atendimento psicoterápico
ou grupos específicos (álcool-drogas),
o Serviço de Psicologia, a Psiquiatria
Infantil, o Departamento de Pesquisas e de Pós-graduação,
o ambulatório de Terapia Ocupacional, o
Serviço Social, o Pronto-Atendimento e
o Programa de Reabilitação Psicossocial
(PR), este último estreitamente ligado
ao HD.
A
capacidade de atendimento do HD é de trinta
pacientes e mais vinte vagas no PR. O tempo médio
de permanência no HD é de trinta
dias, sendo que no PR é mais longo, como
requer a programação de reabilitação
psicossocial. Nossos pacientes, pertencem ao quadro
de funcionários públicos do Estado
de São Paulo ou seus dependentes, de modo
geral portadores de quadros psiquiátricos
graves, agudos ou reagudizados, mas que continuam
capazes de manter o autocontrole, não oferecendo
maior risco para si e ou para os demais, podendo
conviver em regime de portas abertas, daí
uma das indicações para o HD. A
maioria vem desacompanhada ao hospital, utilizando-se
do transporte público.
O
HD funciona através de uma equipe multidisciplinar
formada por: dois psiquiatras, dois residentes
em psiquiatria, duas psicólogas, três
terapeutas ocupacionais e três aprimorandas
em TO, uma enfermeira e duas auxiliares de enfermagem,
uma assistente social, uma secretária e
voluntários, estes últimos são
responsáveis por atividades como artesanato,
música, literatura, dança e movimento.
A modalidade de atendimento é preponderantemente
grupai. Temos grupos em basicamente quatro modalidades:
psicoterápico, psicoeducacional, de atividades
e recreacionais. Esta equipe realiza uma reunião
semanal, com participação de todos
os membros, onde são discutidas questões
administrativas, participação dos
pacientes nos diversos grupos, problemas ocorridos
na semana, casos novos, altas, encaminhamentos
para o PR, questões teóricas, além
de se constituir num fórum continuado de
discussões sobre hospital-dia e reabilitação
psicossocial.
Todos
os pacientes internados estão sob cuidados
de um médico residente e um psiquiatra
encarregado da supervisão, prestando atendimento
individualizado integrado aos atendimentos grupais
dirigidos por membros da equipe multidisciplinar.
Semanalmente é realizada uma visita médica,
com a presença de toda a equipe, dos médicos
residentes e encarregados dos setores de enfermaria
e ambulatório e preceptores, onde a evolução
de cada paciente é apresentada a todos.
Reuniões semanais, supervisão e
visita médica são atividades responsáveis
pela integração da equipe do HD.
dentro do Serviço de Psiquiatria como um
todo.
Os
pacientes são encaminhados para internação
em HD pelos médicos do Serviço de
Psiquiatria do HSPE. A indicação
para participação no PR é
de responsabilidade da equipe do HD.
O
paciente encaminhado ao HD, passa por entrevista
realizada por membros da equipe, e por esta ocasião
firmamos, com o paciente e ou familiares, um contrato
de participação, de direitos e deveres,
contrato este que norteia o paciente durante sua
permanência no HD e no PR.
CONTRATO
DO HD e do PR
1)
O paciente deve ter condições mínimas
de autogerenciamento para que possa permanecer
internado em local de portas abertas, sem vigilância
de entrada ou saída de pacientes
2)
Não serão admitidas quaisquer formas
de agressão física ou atitudes violentas.
Caso isso ocorra, o paciente será automaticamente
desligado do HD.
3)
Não será permitida a permanência
no HD de pacientes que estiverem sob efeito de
álcool ou qualquer outra droga ilícita.
4)
A permanência no recinto do HD é
destinada somente aos pacientes internados. Tornando-se
vetada a permanência de pessoas estranhas.
O paciente pertencente ao programa de HD ou reabilitação
psicossocial será identificado através
de um crachá fornecido no ato de sua internação.
5)
A internação deve ser realizada
com consentimento pleno do paciente e de seus
familiares e ou responsáveis.
6)
O HD não se responsabiliza pêlos
pertences pessoais dos pacientes.
7)
Todos os pacientes devem zelar pela conservação
e higiene das dependências do HD.
8)
Todas as quartas feiras, às 8h30 será
realizada a visita médica, sendo obrigatória
a presença de todos os pacientes e de toda
a equipe.
9)
As atividades no HD são preponderantemente
grupais, os pacientes só serão dispensados
de algum dos grupos por ordem de seu médico
ou da equipe do HD.
10)
Os pacientes terão sua evolução
clínica acompanhada, diariamente, por seu
médico através de consultas individuais
realizadas no HD. Os pacientes do programa de
reabilitação são acompanhados,
clinicamente, através do ambulatório.
11)
Todos os horários devem ser respeitados.
O horário de entrada é as 8h e o
de saída às 17h. Deve também
ser observado o horário das atividades
grupais.
12)
As refeições constarão de
café-da-manhã, almoço e lanche
da
tarde. Não será fornecida alimentação
fora dos horários estabelecidos. Os pacientes
do programa de reabilitação psicossocial
que tiverem atividades nos períodos da
manhã e tarde terão direito a todas
as refeições.
13)
Só será fornecida alimentação
aos pacientes que freqüentarem o HD nos períodos
da manhã e da tarde. Os pacientes que faltarem
no período da manhã deverão
justificar sua falta para ter direito ao almoço.
14)
Nenhum paciente poderá freqüentar
o HD menos do que três vezes por semana.
Os dias nos quais o paciente deve freqüentar
o HD será indicado por seu médico,
sendo a quarta feira obrigatória, devido
a visita médica.
15)
Só serão admitidas faltas justificadas
ou com permissão do médico ou da
equipe do HD, caso haja faltas constantes o paciente
será desligado do programa de tratamento
do HD.
16)
O paciente só poderá ausentar-se
das dependências do HD com permissão
de algum membro da equipe que comunicará
o fato a enfermeira responsável pelo HD.
17)
Os pacientes receberão, através
da enfermagem, a medicação prescrita
por seu médico. Fora do período
de permanência no HD a medicação
deverá ser administrada pêlos familiares
ou pelo próprio paciente. Os pacientes
do programa de reabilitação não
receberão medicação através
da enfermagem.
18)
No ato da internação no HD o paciente
e seus responsáveis devem se comprometer
a respeitar as regras de funcionamento deste programa
de tratamento.
PROGRAMA
DE REABILITAÇÃO PSICOSSOCIAL (PR)
O
programa de Reabilitação Psicossocial,
no nosso serviço, foi criado em 2002, pelas
dificuldades que a equipe encontrava em dar continuidade
ao tratamento à pacientes que recebiam
alta do HD, e por serem portadores de Transtorno
Mental Grave e Prolongado (TMGP), apresentavam
comprometimento variável em suas habilidades
e necessitavam ainda de cuidados, não-intensivos,
mas, de uma atenção maior voltada
ao treinamento de habilidades comprometidas pela
doença mental e de uma reinserção
social adequada.
Desde
1965 o Serviço de Psiquiatria contava com
uma oficina abrigada, criada como mais uma modalidade
de tratamento e com objetivo terapêutico
de readaptação, ficava sob a responsabilidade
da TO, que ministrava atividades ligadas ao artesanato(4).
Com a criação do PR, a oficina tornou-se
somente uma parte deste programa, pois o PR ampliou-se
com uma oferta bem maior de atividades terapêuticas.
Como sabemos, o HD é mais voltado para
o tratamento da doença mental, com cuidados
intensivos; médico, de enfermagem e de
terapia ocupacional, enquanto que o programa de
reabilitação psicossocial está
mais voltado para a reinserção social
e para o treinamento de habilidades perdidas em
decorrência da doença mental, portanto
com uma preocupação voltada para
a reabilitação no âmbito da
moradia, dos cuidados próprios, manejo
do dinheiro, do lazer e ainda de seu meio social
e dos cuidados com o trabalho, visando um grau
maior de autonomia e independência. O cuidado
psiquiátrico continua imprescindível,
mas pode ser realizado através de consultas
agendadas de acordo com a necessidade.
A
maioria dos pacientes encaminhados para o PR provém
do HD, outros da enfermaria ou então do
ambulatório. Esses pacientes passam por
uma "avaliação funcional"
da equipe, a fim de pesquisar os danos e desabilidades
conseqüentes da doença mental, após
o que sugerem alguma atividade específica
ou então a participação no
programa geral de reabilitação psicossocial.
Ressaltamos que a programação do
PR deve ser individualizada, baseada nas habilidades
comprometidas e portanto requer a participação
ativa do paciente.
O
tempo de permanência no programa de reabilitação
é sempre reavaliado pela equipe. O contrato
para o PR é o mesmo para o HD.
O
HD foi e ainda é idealizado por muitos
como uma proposta "inovadora" e "salvadora"
para substituir modelos médicos ditos "ultrapassados"
como a Internação Integral (II)
e o hospital psiquiátrico, o que não
concordamos, pois privar o paciente de uma forma
de tratamento que pode ser a mais adequada em
certo momento, é no mínimo anti-ético.
O HD, é somente uma outra forma de internação,
indicada para pacientes que mantenham alguma forma
de autocontrole e que necessitam de cuidados intensivos,
tanto psiquiátricos quanto de enfermagem
e de terapia ocupacional. Consideramos que este
importante instrumento terapêutico pode
funcionar como transição entre a
internação integral e o tratamento
ambulatorial. Em outros casos o HD funciona, por
si só, como tratamento, e ainda em outros,
além do tratamento, age como local de proteção
ao paciente que tem ambiente familiar com muitos
conflitos, não oferecendo continência
às necessidades do paciente, ou ainda como
local de proteção e acolhimento
ao paciente recém saído de uma crise
e que não possui familiares.
As
internações no HD são, em
geral, de curta duração e centrada
no atendimento de quadros agudos, portanto essencialmente
ligada ao tratamento da doença mental,
já o PR está centrado na reinserção
social e no treinamento de habilidades comprometidas.
Consideramos fundamental o HD estar contido na
UPHG, pois permite um intercâmbio ágil
de serviços. Por vezes um paciente participa
das atividades do HD e retorna para a enfermaria
para o pernoite, nestes casos o paciente não
possui familiares e ainda está desorganizado
para morar só, outras vezes o paciente
apresenta uma reagudização de seu
quadro tornando necessária sua internação
integral, geralmente por um curto período,
quando então retorna ao HD. Em outro sentido,
o paciente internado integralmente, assim que
apresenta melhora pode ser transferido ao HD.
Procedimentos
como Eletroconvulsoterapia (ECT), introdução
de clozapina, revisão e troca de medicação
e realização de exames subsidiários
podem ser realizados em HD, de uma maneira cuidadosa
e atenta, possibilitando ao paciente se manter
integrado ao meio familiar.
O
HD funciona diariamente, exceto nos fins de semana,
das 8h-17h. O programa do HD é desenvolvido
em função da dinâmica resultante
do momento dos pacientes internados, sendo que
alguns grupos existem de forma permanente como
os grupos de psicoterapia, de atividades, psico-educacionais
e recreativos, outros são criados ou suprimidos
dependendo desta dinâmica interna, do desejo
dos pacientes e das possibilidades da equipe terapêutica.
2a.
feira |
3a.
feira |
4a.
feira |
5a.
feira |
6a.
feira |
| 8:00
- 9:00 *Reunião do HU (equipe) |
8:30
"'Oficina de Criatividade (T.O. Tati) |
8:30
- 9:00 *Visita Médica 9:00 *Assembléia
de pacientes e equipe 9:00 - 10:00 * Reunião
de Família (Dra. Aleuda / Dr. Aníbal) |
9:00
- 10:00 * Grupo de Cidadania (Marlene) |
9:00
- 10:00 * Jogos dramáticos (Marlene)
|
9:00-10:15
*Psicodrama (Dr. LUÍS) |
8:50-
10:15
* Reab. Psicossocial (T.O.- Carol e Simone)
*Reab.Trabalho (T.O. Elisa) |
9:30-11:00
* Oficina de Comunicação (T.O.
Elisa) * Grupo de Artesanato (Ana) |
10:00-
11:00
*Grupo de informação (A.S. Fátima)
|
9:00
- 10:00
* Jogos dramáticos (Marlene) |
10:30-
11:30
*Grupo de música '(José Luís
+ TO. Tati) *Atividades c/ voluntárias
|
10:30-11:30
*Musicoterapia (Márcio) |
10:15-
11:00 *Reab. Psicossocial (TO. Tatiana) |
|
10:30- 11:30 *Psicoterapia (Aprimorandas de
psicologia) |
| ALMOÇO |
ALMOÇO |
ALMOÇO |
ALMOÇO |
ALMOÇO |
13:00- 14:00 *Atividades Expressivas (T.O.
Simone) |
13:00-
14:00 *0f. De Memória e Atenção
(T.O. Ana) |
13:00-13:30 *Digitação Jornal
13:30- 15:00 Lúcia) |
13:15-
14:15 *Grupo de Atividades (TO. Çarol)
*HD News - Jornal (TO. Ana Lúcia) |
12:00-
13:15 *Grupo de Poesia (Dra. Sílvia
+ Leandro) |
14:00- 15:00 * Oficina de dança e movimento
(Psicóloga Ana Cristina) |
14:00-
15:00 *Grupo de informações
Médicas (Dra. Patrícia) |
15:00-
16:00 *Psicoterapia (Psicólogas: Roberta
/ Marina) |
14:40-
15:40 * Psicoterapia (Dr. Fernando) |
13:30-
15:00 *0f. de Movimento (TO. Ana Lúcia)
|
Grupo
de psicoterapia no Hospital-Dia
Este grupo
é destinado aos pacientes do Hospital-Dia
e do Programa de Reabilitação do
Hospital do Servidor Público Estadual (HSPE),
com quadros de desorganização psicótica
crônica e aguda, dependência química
e neuroses graves. Trata-se de um grupo aberto,
com duração de uma hora e freqüência
semanal. Ele é coordenado por duas psicólogas
em co-terapia e tem a participação
de uma observadora (aprimoranda de psicologia),
que registra os encontros.
O grupo funciona
através da discussão de temas trazidos
pêlos próprios pacientes, sem uma
proposta pré-determinada. Entre os temas
colocados, elege-se o de maior ressonância
no grupo para ser desenvolvido neste encontro.
O grupo não é processual, as intervenções
são trabalhadas no aqui-e-agora.
Este trabalho
visa a construção de um espaço
de relação e trocas interpessoais;
de reflexão a respeito de si e do outro
e viabiliza a busca de uma maior apropriação
e responsabilização, por parte dos
pacientes, de suas doenças, seus sofrimentos
e suas atitudes. Isto ocorre através do
acolhimento, da possibilidade de expressão
e da resignificação de posições
assumidas na vida. Visa também a criação
e/ou reformulação de projetos de
vida através das trocas grupais.
Discussão
Essa é
uma experiência que vem sendo realizada
desde setembro de 2002 e a partir dela algumas
questões puderam ser observadas e pensadas.
O grupo constituiu-se
em um espaço de acolhimento e pertencimento,
no qual os pacientes puderam sentir-se aceitos,
uma vez que se identificavam entre si. Isto facilitou
a possibilidade de compartilhar seus sofrimentos
e experiências relativas ao adoecimento.
O foco das discussões
não s.e ateve, necessariamente, à
doença em si, mas nas experiências
de cada paciente, o que incluía também,
as vivências do adoecer.
Chamou atenção
a participação de pacientes mais
comprometidos e crônicos que, ao contrário
do que se imaginava, puderam beneficiar-se do
grupo no sentido de poderem manifestar-se, serem
ouvidos e acolhidos. Suas falas eram algumas vezes
desconexas e em outras vezes, eram colocadas com
muita coerência e propriedade.Nesse sentido,
pode-se considerar a pertinência de um trabalho
verbal/reflexivo com pacientes crônicos,
que muitas vezes, carecem de um espaço
de escuta por serem vistos como alienados pela
sociedade em geral.
Um exemplo que
pode ilustrar essa situação trazida
seria a fala de um paciente esquizofrênico
que revela ao grupo seu delírio persecutório.
Ele se sentia impedido de realizar qualquer ocupação
por ter seus pensamentos invadidos. Ao colocar
esta experiência, o paciente pôde
estar e participar do grupo sem sentir-se invadido
ou impedido.
Outra observação
que vale ressaltar é o papel das intervenções
horizontais - de paciente para paciente - na possibilidade
de resignificação e reflexão
dos conteúdos trazidos. Muitas vezes as
intervenções realizadas pelas terapeutas
podem soar persecutórias ou distantes por
não terem o colorido da vivência.
Um paciente que compartilhava com o grupo seu
delírio de grandeza sem críticas,
pode ouvir da colega que acreditava ser capaz
de fazer coisas grandiosas quando ela estava fora
de seu estado normal, numa crise de mania. Esta
colocou as dificuldades encontradas para aceitar
a realidade e a importância de reconhecer
seus limites e impotências.
As intervenções
verticais - de terapeutas para o grupo - tiveram
a função de favorecer o contato
dos pacientes com suas questões internas
e a troca interpessoal. Buscou-se promover a percepção
do outro enquanto alteridade, podendo contribuir
com o coletivo do grupo, saindo de uma posição
autocentrada. No caso dos pacientes mais retraídos,
buscava-se facilitar sua expressão com
encorajamentos.
Observou-se um
movimento recorrente do grupo em depositar nas
terapeutas os recursos psíquicos e os saberes,
desejando respostas prontas, rápidas e
muitas vezes, mágicas. Depositavam também
a esperança de que as mesmas pudessem extirpar
todas as suas angústias, retirando todo
sofrimento que a vida pode trazer, configurando,
segundo a visão de Bion, um pressuposto
básico de dependência.
As intervenções,
neste sentido, visavam devolver os recursos ao
grupo, apontando esse movimento projetivo, e ampliar
a capacidade de continência e tolerância
para as angústias.
Os pacientes, muitas
vezes, queixavam-se do grupo, deixando claro a
dificuldade em lidar com esta forma de manejo
para as emoções. Houve momentos
em que a angústia paralisava o funcionamento
do grupo e muitos integrantes não suportavam
e abandonavam o trabalho.
Nova
Proposta de Trabalho
Em discussão
com a equipe do HD, pensou-se em nova forma de
manejo, através de uma proposta menos aberta,
com uma configuração mais circunscrita
por temas e num tempo pré-determinado,
a fim de que a angústia possa adquirir
contornos mais definidos.
A nova proposta
consistiria na criação de módulos
de 7 a 8 sessões, período médio
de permanência do paciente no HD. Cada sessão
teria seu tema especifico pré-determinado
em conjunto com o grupo num primeiro encontro.
Vale salientar
que a atitude das terapeutas permaneceria a mesma,
no sentido de encontrar no grupo os recursos para
lidar com suas angústias. Continuaria-se
a trabalhar conforme propõem Vinogradov
e Yalom6, numa técnica de acolhimento e
enfatizando uma maior estruturação
da tarefa realizada em cada encontro.
Grupo
de Relações Interpessoais
O Grupo de
Relações Interpessoais (GR1) é
realizado uma vez por semana, sob coordenação
de um psiquiatra e um residente. As sessões
são abertas a todos os pacientes, e visam
proporcionar aos membros do grupo o conhecimento
e uma forma melhor em manejar .suas relações
interpessoais.
O GRI baseia-se
na teoria de que muitos dos problemas dos pacientes
estão relacionados a crenças e comportamentos
interpessoais mal-adaptados. Além disso
o próprio transtorno psiquiátrico
pode gerar mudanças nos padrões
de relacionamentos interpessoais.
Os fatores relacionados
à melhora seriam;
1. Aprendizagem interpessoal:
"No grupo ocorre um aumento da compreensão
dos próprios relacionamentos, um domínio
do comportamento interpessoal podendo levar a
uma melhor capacidade de alcançar relacionamentos
satisfatórios.
2. O grupo como microcosmo
social: As dificuldades interpessoais, frustrações,
competições podem ser rapidamente
revividas pelo paciente dentro do ambiente grupai.
Estes aspectos podem ser observados nas relações
dos pacientes com outros membros do grupo e com
os terapeutas. Além disso o grupo pode
funcionar como um local onde são revividas
outras experiências grupais do paciente
(família, grupos escolares, profissionais
etc).
3. Enfoque no aqui-agora: No
grupo o paciente compartilha com outros suas vivências
e experiências familiares, sociais e profissionais,
e estas são comparadas ao seu modo de ser
dentro do ambiente grupal. A relação
entre os membros pode instilar confiança,
sentimentos de universalidade (ou seja o paciente
percebe que ele não é o único
que sofre, que outros tem problemas semelhantes),
fornecer informações, altruísmo
(os pacientes tornam-se úteis uns aos outros,
oferecem apoio, reasseguramento, sugestão
e insight), desenvolvimento de técnicas
de socialização, comportamento imitativo
e catarse.
Grupo
de Psicodrama
O grupo é
aberto a todos os pacientes do HD e do PR, cuja
participação é voluntária
e é, quase sempre, composto por mais de
30 pacientes. As sessões, têm a duração
de uma hora e meia, e, como o turnover de pacientes
internados é alto, o grupo tem sempre uma
composição diferente e a média
de participação de um mesmo paciente
no psicodrama é de quatro sessões.
Por esta razão, o psicodrama é realizado
nos moldes de sessão aberta, na qual cada
sessão é considerada como única,
com começo, meio e fim, não pressupondo
a realização de um processo psicoterápico,
que aconteceria em sessões semanais e por
tempo indeterminado.
A sessão
começa com o processo de aquecimento, Geralmente,
em seu início, há um entra e sai
da sala, mas aos poucos os pacientes se organizam,
sentam-se, restando alguns pacientes mais desorganizados
que permanecem neste entra e sai.
Iniciamos a sessão
de psicodrama perguntando o nome dos participantes,
seu estado atua] ou, ainda, sobre os motivos de
sua internação, esta pergunta faz
com que se estimule um processo crítico
no próprio paciente e no grupo, além
de propiciar identificações e curiosidades
entre os participantes.
Assim, o aquecimento inicial
depende sempre do tipo de grupo que se forma no
dia do psicodrama, e o tipo de grupo que se forma
depende do predomínio de determinadas patologias
entre os pacientes internados, se há um
predomínio de pacientes em mania, o grupo
é no início acelerado e caótico,
se predominam pacientes depressivos ou inibidos,
o grupo é silencioso e de modo geral são
levantados temas relacionados à morte ou
à perdas, ou então a medos. Quando
há algum paciente delirante, com uma história
fantástica ou comportamento bizarro, este
costuma ser o protagonista, pela curiosidade e
atenção que desperta em todo o grupo.
Terminada a fase de aquecimento,
passamos para outra fase; a do aquecimento específico.
Nesta fase preparamos o protagonista e o grupo
para a dramatização. Aqui, o grupo
está atento ao relato do paciente e, eu,
como diretor, vou escolhendo a cena inicial do
psicodrama.
O círculo
central, delimitado pêlos participantes,
constitui o palco. Montado o cenário e
com os personagens escolhidos, já estamos
em plena etapa da dramatização.
As técnicas
fundamentais do psicodrama são as mais
freqüentemente utilizadas: inversão
de papéis, espelho, solilóquio e
duplo, além da concretização,
que é um dos procedimentos mais usados
na investigação de sintomas. No
HD, grande parte dos pacientes trazem ao grupo
queixas dos mais variados sintomas: dores no peito,
de cabeça, generalizadas pelo corpo, falta
de ar, palpitações, alucinações
cenestésicas, auditivas, olfativas, visuais,
sensações de influência corporal
etc. Todos esses sintomas podem ser concretizados
e a partir dai, trabalhados.
Na psicose, o doente
perde a capacidade de perceber o outro. No estado
agudo de um surto psicótico, a relação
com o outro pode estar distorcida, sua noção
de realidade é particular,, impossibilitando
compartilhamento. As relações estabelecidas
pelo paciente paranóide se fazem quase
que, exclusivamente, por meio de mecanismos transferenciais,
constituindo relações projetivas.
O paciente delirante não tem a plena capacidade
para o encontro, fica refugiado e isolado em seu
eu, e nessa solidão fabrica um tu delirante
para acompanhá-lo.
A experiência
psicodramática tenta reconstruir o panorama
da psicose, a fim de que estas relações
transferenciais possam ser trabalhadas psicoterapicamente,
resgatando a comunicação lógica
e redescobrindo o "outro", para que
haja a possibilidade da relação
eu-tu, matriz do encontro. Essa visão fragmentada
de mundo, trabalhada psicodramaticamente, pode
fazer com que estes retalhos sejam costurados,
estabelecendo um sentido, fechando a brecha entre
fantasia e realidade.
Podemos trabalhar com
choque psicodramático, que consiste em
solicitar a um paciente situar-se novamente em
uma vivência alucinatória, para ele
significativa, enquanto essa experiência
está ainda viva em sua memória.
Trata-se de um procedimento psicodramático
que busca reconduzir um paciente que saiu de um
surto psicótico a uma segunda psicose,
agora experimental, no ambiente protegido da dramatização.
Moreno afirma que o momento ideal para aplicação
do método é logo após a remissão
do surto psicótico, pois ainda estão
vivas as vivências alucinatórias,
delirantes e de estranheza apresentadas durante
o surto psicótico. Outras vezes o onirodrama,
que consiste na dramatização de
sonhos pode desencadear o choque psicodramático.
Após a dramatização,
ocorre o compartilhar, onde nesta etapa os integrantes
do grupo são estimulados a compartilhar
suas emoções, impressões,
sentimentos e pensamentos, assim como suas semelhanças
e identificações com o protagonista
da dramatização. O processo de compartilhamento
permite ao protagonista sentir-se ligado aos outros
membros do grupo.
Grupo
de Informação e prevenção
de recaídas:
Este grupo
ocorre semanalmente, dirigido por um residente
de psiquiatria. Trata-se de um grupo psico-educacional
que tem como proposta discutir temas relacionados
à doença mental. Neste grupo os
pacientes recebem informações a
respeito das doenças mentais, como a esquizofrenia,
o transtorno afetivo bipolar, os transtornos de
ansiedade, depressão, transtornos de personalidade,
abuso de substâncias psicoativas etc., assim
como também recebem informações
sobre a medicação psiquiátrica,
suas indicações, seus efeitos colaterais
e principalmente sobre a sua importância
na prevenção de recaídas.
Grupo de família
Ocorre quinzenalmente,
dirigido por uma psiquiatra e um residente, com
a duração de uma hora e meia. Alterna
com grupo de família da TO. A diferença
entre estes dois grupos é que o primeiro
destina-se a abordagem do vínculo familiar
e tem função psicoterapêutica,
enquanto que o segundo está voltado para
a atividade do paciente no ambiente familiar
Programação
da Terapia Ocupacional (TO) no HD:
É consenso
que o trabalho em equipe multidisciplinar auxilia
no tratamento de déficits e incapacidades
que dificultam o funcionamento autônomo
e integração social e familiar.
A terapia ocupacional
participa deste contexto utilizando-se de atividades
como recurso terapêutico, adequando-as ao
perfil de cada grupo e contribuindo para o processo
de inserção social.
A prática
do terapeuta ocupacional está alicerçada
na compreensão de como cada indivíduo
significa suas ações no cotidiano,
como vivência esse cotidiano, que valor
tem cada atividade no contexto em que vive.
Para estruturarmos
a grade de atividades proposta ao Hospital-Dia,
procuramos atender às necessidades e solicitações
dos próprios pacientes, que também
participam neste sentido. Existem atividades reorganizadoras
da rotina, que estimulam a convivência e
processos de autoconhecimento; outras que incentivam
o aprendizado e descoberta de novos interesses.
Isso explica a variedade de propostas pela T.O.
É importante que os pacientes adquiram
capacidade de realizar projetos, participem de
ações na comunidade e desenvolvam
autonomia.
Desde a inauguração
do HD no novo prédio, em maio de 2000,
A TO vem desenvolvendo uma programação
diferenciada daquela oferecida em anos anteriores,
quando o HD funcionava dentro da enfermaria psiquiátrica,
junto aos pacientes em regime de internação
integral.
Na TO, ao reunirmos
os pacientes, iniciamos com um levantamento de
suas propostas, desde as atividades que despertem
mais interesse e quais grupos tenhamos condições
de oferecer. Os pacientes costumam propor: artesanato,
conversação, ginástica, relaxamento,
música, passeios. Por outro lado, a TO
preocupa-se em oferecer atendimentos que contemplem
as sugestões e propostas dos pacientes,
mas em contrapartida, inclui aquelas que são
a base das nossas intervenções,
isto é, atividades da vida prática,
planejamento do mundo da vida do paciente, relações
de trabalho, autonomia e independência.
A programação está assim
constituída:
Grupo de Jornal:
HD News, nosso
jornal, tem por objetivo estimular a integração
social, promover a troca de informações,
atualização e experiências
entre os pacientes, favorecer a descoberta de
novos interesses, proporcionar espaço para
produção, exposição
e discussão de idéias, manter contato
com a realidade externa, favorecer o processo
de autoconhecimento, iniciativa, cooperação,
organização e responsabilidade,
estabelecer um veículo de comunicação
no HD.
O processo de elaboração
implica na redação de temas livres
e apresentação dos artigos, com
abertura a discussão sobre os temas, e
digitação destes pêlos próprios
pacientes. A reconstrução dos textos
favorece a re-significação a própria
história.
Para tal,
o HD dispõe de dois computadores para uso
sob supervisão da terapeuta.
O jornal tem circulação
de 30 exemplares que são distribuídos
entre os participantes e equipe técnica
do HD, com periodicidade bimestral.
É principalmente
no acompanhamento das histórias individuais
de cada paciente, somado á história
das realizações do conjunto do grupo,
que percebemos a importância, na vida desses
indivíduos, desses espaços de construção.
Oficina
de Memória e Atenção:
Tem como objetivo
estimular funções cognitivas (percepções,
memória recente e antiga, noções
espaciais, habilidades lógicas e verbais)
enfatizando aspectos requeridos para a organização,
aprendizagem e realização adequada
de AVPs (Atividades da Vida Prática). Participam
desta atividade os pacientes de HD e aqueles em
programa de reabilitação psicossocial,
tendo como critério de participação
o nível de escolaridade. A atividade ocorre
uma vez por semana com duração de
uma hora/sessão.
A necessidade deste
trabalho deu-se a partir da observação
de que a função cognitiva é
marcada por diferenças individuais consideráveis
e a perda da eficiência cognitiva pode ser
freqüentemente compensada. Mesmo sendo a
perda de memória mais comum em idosos,
quadros presentes também no indivíduo
adulto como ansiedade, depressão, uso de
drogas e álcool, doenças degenerativas,
AVCs e traumatismos cranianos costumam ser apontados
como causadores de distúrbios de memória,
assim como o uso prolongado de algumas medicações,
que propiciam a desatenção e a dificuldade
de memorizar. Mesmo aqueles pacientes que se queixam
de pequenos esquecimentos, que são considerados
manifestações comuns no indivíduo
normal, mas que no decurso do dia-a-dia apresentam
falhas na retenção ou esquecimento
espontâneo, se beneficiam da oficina de
memória pela conscientização
de algumas estratégias de fixação
e atenção seletiva.
A teoria apresenta ampla
e geral orientação sobre o manejo
destes problemas, sugerindo técnicas e
estratégias possíveis de serem adaptadas
ao perfil e necessidade dos grupos.
Observa-se que a troca
de estratégias entre os participantes é
uma constante, assim como o conhecimento de novas
opções para o desenvolvimento pessoal.
Sempre há a chance de se obter sucesso
em uma das atividades, o que é altamente
positivo, principalmente para aqueles acostumados
ao fracasso.Para podermos avaliar a evolução
dos resultados do nosso trabalho, analisamos aspectos
como inclusão, participação,
interesse, iniciativa, capacidade de desenvolver
atividades com os outros e capacidade de colaboração.
É importante que
estejamos atentos para refletir, organizar e avaliar
estratégias terapêuticas mais eficazes
para esta modalidade de atendimento, que atendam
às reais necessidades dos pacientes. Faz-se
necessário também que a equipe se
organize e seja coesa, a fim de dar contingência
às vivências trazidas pêlos
pacientes.
Grupo de reabilitação:
Este grupo acontece
às terças-feiras, com duração
de uma hora e meia e é considerado obrigatório,
pela equipe, a todos os pacientes que participam
do PR. A partir do segundo semestre de 2002 a
demanda de encaminhamento para o grupo de reabilitação
psicossocial aumentou potencialmente, a diversidade
de patologias e interesses tornou-se marcante,
fazendo com que reformulássemos o grupo.
Para atender com eficácia a demanda, o
grupo foi dividido em três vertentes: crônicos,
volta ao trabalho e dependentes químicos.
O grupo procura
atuar, nos diferentes contextos e instituições
(família/casa, trabalho/com valor social,
comunidade) visando sempre um processo de reconstrução
ou construção da cidadania.
Ressaltamos que é
importante buscar recursos da comunidade e não
apenas os recursos institucionais, porque é
na comunidade que ele vai estar inserido. Os pacientes
são estimulados a participar de sociedades
de bairros, clubes na comunidade etc.
O programa de reabilitação
psicossocial está atento à:
• organização
do cotidiano, do tempo e espaço,
• promover
situações que favoreçam a
autonomia do sujeito para ampliar seus conhecimentos,
transformar ou modificar suas ações
diante de suas necessidades,
• estimular
a capacidade criativa para lidar com determinadas
situações,
• promover
situações de AVD (dificuldades do
dia-a-dia) e AVP (manejo de dinheiro, trabalho,
escolha x compra, pagamento de contas etc) através
de vivências,
• estimular
as relações interpessoais,
• possibilitar
a integração ou troca de experiências
ou vivências entre os integrantes do grupo,
• oferecer
atividades diferenciadas com etapas de produção
estabelecidas de maneira a respeitar a potencialidade
de cada indivíduo,
• diminuir
os efeitos da cronificação,
• desenvolver
meios que facilitem ou estimulem o paciente a
dar continuidade ao tratamento,
• mostrar
que é possível viver bem com a doença,
• incentivar
o paciente a voltar ou procurar um emprego para
não romper ainda mais com os vínculos
sociais e familiares.
Este grupo
passou por uma reforma através de uma avaliação
realizada com pacientes, assim, estamos trabalhando,
a priori, com pequenos projetos que surgem a partir
das necessidades dos pacientes, pode ser um projeto
individual ou em grupo, através destes
projetos, trabalhamos então com o agendamento,
com as atividades da vida diária e da vida
prática, semana cultural (em determinados
momentos os próprios pacientes se organizam
para estar realizando uma atividade extra-hospitalar
em conjunto, sem a participação
da terapeuta ocupacional).
Grupo
de reabilitação para o trabalho
Dirigido
pela terapeuta ocupacional. Os pacientes indicados
para este grupo têm como principal característica
o desejo manifestado durante o período
de internação no HD em retornai-
ao trabalho ou estudos.
O objetivo é
avaliar as dificuldades que o paciente apresenta
e propor metas de curto prazo. Identificar as
relações saúde-trabalho-doença.
Ouvir suas impressões e sentimentos no
trabalho, como a doença repercute no seu
desempenho, no relacionamento com seus colegas.
Nos atendimentos
de TO, discutimos as diversas possibilidades que
o paciente observa em seu ambiente de trabalho,
o que efetivamente consegue desempenhar e como
pretende propor aos seus coordenadores ou chefias
o que ele está pensando.
Grupo de Recepção
Grupo
terapêutico realizado uma vez por semana,
com duração de uma hora e trinta
minutos, coordenado por duas Terapeutas Ocupacionais.
Objetivo do Grupo:
proporcionar um setting grupal*, no qual os pacientes
possam relatar/ expor situações
ocorridas no final de semana, projetos que foram
desenvolvidos, dificuldades encontradas no convívio
familiar e social, se conseguiram realizar alguma
atividade e outras questões referentes
ao tema. A partir da facilitação
terapêutica e das trocas entre participantes
pretende-se: identificar conflitos e dificuldades,
promover oportunidades para exploração
de capacidades de resolução de problemas
e tomadas de decisões, melhorar a comunicação
e proporcionar aprendizado útil à
vida em comunidade.
"A intenção
é proporcionar uma experiência de
trabalho compartilhado onde o relacionamento entre
sentimentos, pensamentos e comportamentos e o
impacto destes sobre os outros e sobre a execução
da atividade pode ser visto e explorado"
Metodologia: Uso
de atividades expressivas ou estruturadas através
de intervenção terapêutica.
Durante
a atividade grupai, as terapeutas/facilitadoras
deverão realizar eventuais intervenções
com objetivo de centralizar as discussões,
promover engajamento e expressão verbal,
oferecer oportunidades para o aprendizado, oferecer
experimentações de modelos mais
ajustados de interação com os demais,
incentivar a capacidade do paciente para responsabilizar-se
por si mesmo e incentivar a realização
de atividades que desejam.20.
Considerações:
Importante ressaltar que pacientes comparecem
no horário estipulado, iniciam relato sem
necessidade de estímulo terapêutico
e sem necessidade de reafirmação
do objetivo do grupo. Os relatos são acolhidos
pelos pacientes com significativa contenção
e disposição de abordagem e ajuda.
Tem sido uma constante o aparecimento de estímulos
como por exemplo, "tenta fazer ... você
consegue" (sic).
Um exemplo: Paciente
T. inicia relato sobre o final de semana, conta
que discutiu várias vezes com a filha por
motivos financeiros e que gostaria de trocar os
armários de sua cozinha, comprar um liquidificador
novo, trocar a geladeira e o fogão. Ao
mesmo tempo afirma que tem compulsão para
comprar e que gasta sem medida. Enquanto relatava
insistentemente o fato é interrompida pela
paciente E., que sugere uma reforma e pintura
dos armários para evitar gastos desnecessários
e preocupações da filha.
As terapeutas interviram
no sentido de mostrar o quanto era viável
a sugestão e o quanto isto poderia ajudá-la
nos outros aspectos compulsivos. T. concordou
com a abordagem e referiu sentir-se dispostas
a rever suas questões conflituosas ( gastos
e discussões com a filha).
*Espaço
Terapêutico: Espaço onde ocorre a
TO. Este deve atender o seu propósito -
ser uma área onde os pacientes são
esperados para fazer atividades assumindo papéis
diferentes, principalmente dos de passivos ou
doentes. Sempre é necessário que
o ambiente permita o aprendizado de habilidades
que busquem o sustento das emoções,
além dos equipamentos materiais. Para tanto
manipula-se o ambiente de forma variada, selecionando
estímulos visando maximizar o aprendizado
e o funcionamento afetivo.
Grupo Livre Escolha
Trata-se
de um grupo semanal de terapia ocupacional coordenado
por duas aprimorandas de Terapia Ocupacional.
Tem como objetivo auxiliar a organização
do paciente através da atividade assim
como ajudar na avaliação funcional
de suas habilidades.
Os pacientes reunem-se
na sala de TO, e escolhem livremente o material
com que desejam realizar algum trabalho. Nesta
escolha o paciente entra em contato com diversos
materiais afim de escolher alguma atividade que
tenha significado para o seu momento de vida.
O paciente é estimulado a planejar a atividade
e realizá-la efetivamente. A sensação
que o paciente experimenta ao concluir a atividade
melhora sua auto estima e seu senso de organização
interna.
Este grupo
também possibilita ao paciente conhecer
melhor suas potencialidades e escolher, dentro
do programa do HD, as atividades mais condizentes
com seu potencial e enfrentar dificuldades práticas.
Grupo de agendamento semanal:
Dirigido
pela aprimoranda de Terapia Ocupacional. Tem como
objetivo auxiliar o paciente na organização
das atividades de sua semana. Todos os pacientes
são convidados a participar e a freqüência
é espontânea.
Nesse grupo o paciente
pode:
- definir
ações que o impulsionem para o futuro
acompanhar projetos individuais e trabalhar as
questões do cotidiano, as dificuldades
e angústias que vão surgindo ao
avançar nesses projetos propostos.
- ouvir sugestões
dos outros participantes (o grupo funciona como
apoio), analisar e acompanhar como cada um avalia
a sua ação.
Dinâmica:
cada paciente estabelece algumas atividades (compromissos)
pessoais para a semana, escreve o que se propõe
a realizar e cola essas 'tarefas/metas' numa espécie
de mural do grupo. Na semana seguinte, esses projetos
são retomados e realiza-se uma discussão
sobre o que foi alcançado e as dificuldades
encontradas.
Este grupo prioriza
o compromisso e os afazeres que o paciente tem,
fora do contexto hospitalar durante a semana.
O grupo é realizado uma vez por semana
com duração de uma hora.
Aborda questões
rotineiras, lazer no final de semana e pequenos
afazeres como planejamento alimentar, pagamentos,
visitar parentes. A questão acerca da utilização
e aproveitamento do tempo é tema freqüente.
O papel do terapeuta
ocupacional neste grupo é o de acompanhar
os planos que o próprio paciente têm
como relevantes para retomar ou instituir modificações
para seu bem-estar no dia-a-dia.
Esta é uma
das mais antigas bases do tratamento em Terapia
Ocupacional. Nomeados por vários autores
como atividades da vida diária (AVD) e
atividades da vida prática (AVP), sua função
é o de trazer para o plano de tratamento,
aquelas funções exercidas como parte
da rotina, na qual as pessoas desenvolvem habilidades
organizadoras, necessárias e desejáveis
para cada indivíduo.
Grupo
de Família na TO
Esta atividade
é desenvolvida pela aprimoranda de Terapia
Ocupacional. Ocorre quinzenalmente, com duração
de uma hora, alternando com o grupo de família,
dirigido pela psiquiatra. Participam desta reunião,
os paciente e alguém de sua família.
O papel do terapeuta
Ocupacional neste grupo é voltado para
orientações práticas quanto
ao apoio que pode oferecer no planejamento e estímulo
para o seu parente internado, principalmente àquelas
atividades preferenciais pelas quais ele manifestou
interesse durante seu período de tratamento.
Na Terapia Ocupacional, esta orientação
familiar é direcionada àqueles pacientes
que apresentam maior dependência e são
comprometidos. A orientação consiste
em buscar atitudes compreensivas e de estimulação
na participação de pequenos projetos,
programar lazer e estimular relacionamentos.
Este grupo não
tem o propósito de intervir e nem aprofundar
as dificuldades do relacionamento, ficando este
papel à médica que dirige o grupo
de família nas semanas que se intercalam.
Grupo de reinserção:
Dirigido
por aprimorandas em Terapia Ocupacional. Ocorre
semanalmente com uma hora de duração.
Neste grupo participam apenas pacientes que estão
indicados para a reabilitação psicossocial.
Este grupo é importante principalmente
para pacientes que encontram dificuldades acentuadas
para o planejamento e organização
de seu tempo. O objetivo desse grupo é
o de estimular ou desenvolver experiências
em situações de aprendizado.
As dinâmicas
utilizadas são: discussões, vivências,
dramatizações, atividades práticas
e saídas pela cidade.
Estas atividades
externas cobrem alguns interesses manifestados
pelos participantes no grupo, tais como: programar
um passeio pelo próprio bairro onde mora
e pesquisar locais que futuramente possam vir
a freqüentar, ir à feira e ao supermercado.
Os pacientes são estimulados e acompanhados
pelas terapeutas ocupacionais em eventos culturais
como exposições de arte, cinema,
centros esportivos e parques da cidade.
Grupo
de projetos:
Dirigido
pela terapeuta ocupacional, ocorre semanalmente
com duração de uma hora. Todos os
pacientes são convidados a participar.
O objetivo é
o de acompanhar qualquer empreendimento que o
paciente defina ser de seu interesse, .motivação:
viajar, estudar, ter amigos, casar, melhorar seus
relacionamentos, aprender uma nova profissão.
A escolha implica conduta, decisões e prática.
O projeto depende em muitas circunstâncias,
das habilidades que o sujeito possui, das condições
sócio-econômicas e do conhecimento
adquirido.
O projeto
não nasce espontaneamente. Precisa ser
investigado, amadurecido, pesquisado - e precisa
ir a campo. Gostar de algo pode não significar
nada. Ou pode apenas refletir uma apreciação
estética. É imprescindível
que no projeto a pessoa estabeleça uma
relação com o seu objeto de interesse.
Apesar da implicação
destes fatores, o principal objetivo que se considera
é a adequação do projeto
a que o sujeito se propõe.
Os projetos são
planejados segundo o prazo para sua conclusão:
pequena, média e longa duração.
O mesmo ocorre
quando se procura desenvolver e estimular o que
chamamos de potencialidades, porque é um
traço ainda não revelado, mas que
pode vir a sê-lo. Portanto, potencialidade
é algo que ainda não é.
A atenção
voltada aos projetos pessoais é importante
pois auxiliam os pacientes na reestruturação
de seu cotidiano.
Grupo
de vídeo:
Coordenado
pela aprimoranda de TO, ocorre semanalmente com
duração de duas a três horas.
Todos os pacientes são convidados e sua
freqüência é espontânea.
O objetivo é
o de abordar temas gerados pela narrativa, trazendo
para discussão opiniões e sentimentos
despertados, procurando sempre relacioná-los
com o cotidiano e compará-los com a realidade
e experiências de vida dos pacientes, acontecimentos
atuais etc.
Dinâmica:
o grupo escolhe o filme da semana baseado numa
pré-seleção de acordo com
os interesses e preferências de cada participante.
Após assistir ao filme, é feita
uma discussão.
Dependendo do gênero
escolhido pelo grupo: documental, ficção,
drama, suspense, terror ou outros, a discussão
pode estar relacionada a aspectos da cultura da
qual o filme se originou, os mitos e os modos
de percepção, a temática
de um determinado aspecto, a estética....
Oficina de comunicação:
Coordenado pela
Terapia Ocupacional. A oficina ocorre uma vez
por semana com duração de uma hora
e meia. Os pacientes são convidados e sua
freqüência é espontânea.
A experiência desta modalidade de atendimento
iniciou-se com pacientes internados na unidade
psiquiátrica e, na ocasião da inauguração
do HD em prédio próprio, a experiência
foi transferida para esta nova unidade.
O grupo tem o objetivo
de conscientizar o paciente sobre a necessidade
de se buscar níveis mais eficientes da
comunicação, discernimento nas falas
em que se envolve, distinguir as comunicações
que são impositivas, manipulativas, apelativas,
porque estas devem ser eliminadas e substituídas
pelo diálogo do entendimento e do consenso.
Na dinâmica
utilizada nos encontros de comunicação,
pergunta-se a cada um, qual o tema relativo à
comunicação que gostariam de debater.
Cada paciente escreve o tema de seu interesse
e o assunto é escolhido por consenso; em
outros encontros, são lidos pequenos trechos
de autores que escreveram sobre temáticas
da comunicação e, mais recentemente,
textos lidos durante o curso de gestão
de processos comunicacionais da USP.
Vários conteúdos
são abordados:
- a diferença
entre manipulação e comunicação
na conversação diária;
-a tendência
para o uso indiscriminado de justificativas no
dia a dia ("não faço isso porque...",
"me atrasei porque...");
- a possibilidade
de encontrar no outro, uma interpretação
diferente sobre um mesmo evento;
- a linguagem
a respeito do tempo (não tenho tempo, o
tempo me pressiona, o tempo passou): a contínua
re-atualização de temas do passado
para o presente;
- a repetição
e os automatismos presentes na comunicação
do dia a dia, familiar, e social (repetições
temáticas como: preocupação,
desemprego, desentendimentos, níveis de
expectativa na relação com o outro)
e a ação da memória;
- a ordem
de importância que damos aos fatos que foram
extremamente difíceis em certos períodos
da vida, como estudar, trabalhar, a sexualidade,
a convivência com outros e que estavam presentes
alguma dimensão da comunicação;
- como lidar
com a preocupação, o medo de agir,
o medo de morrer, o medo de ser ridículo
e os diferentes pontos de vista;
- quais os
discernimentos necessários e as interpretações
presentes na linguagem;
- de que maneira
a interrelação, a palavra, a conversa
passam a criar e constituir a própria existência;
- quais as
dimensões que estabelecemos para manter
nossos projetos em existência;
- onde gastamos
nossa vida, momento a momento (conversas de lamentos,
depressão, queixas, sofrimento, brigas);
- porque percebo
a vida desta maneira e não de outra. Podemos
questionar nossa própria percepção.
Tem pessoas que desenvolvem formas sofisticadas
de não participar: ver TV, comer, dormir,
se preocupar com o problema dos outros, adoecer,
trabalhar demais, religião, fazer piadas,
usar drogas.
Nestes encontros
da comunicação, passou-se recentemente
a pautar estas temáticas, abordando o quanto
na vida diária estão fazendo uso
da cultura "midiática". Em que
grau se está mergulhado e influenciado
com o que se veicula pelo rádio, TV, jornal,
internei, na conversa diária com familiares,
amigos e colegas de trabalho.
Quais as dimensões
e freqüência em que os indivíduos
apóiam-se nos estereótipos, opiniões
de senso comum e preconceitos nos vários
ambientes que freqüentam.
Os fenômenos
psíquicos vivenciados pêlos pacientes
são informações que devem
ser levados em consideração para
o planejamento do tratamento em Terapia Ocupacional.
Estas informações são veiculadas
pela comunicação ou interação
verbal.
Para se estabelecer
uma boa comunicação, não
basta falar ou transmitir, mas principalmente,
ouvir o outro. Escutar é a base, é
o eixo do trabalho nesta oficina.
A fala tem a ver
com a memória, o afeto, a ação
individual, envolve sentimento. As falas ou os
discursos também manifestam o imaginário,
as contradições, as generalizações,
os preconceitos.
A oficina de comunicação
passa a oferecer um espaço para o diálogo
e o autoconhecimento.
Oficina de consumo:
Dirigido pela Terapia
Ocupacional ocorre na última quarta-feira
de cada mês e é um desdobramento
dos encontros da oficina de comunicação.
O objetivo
desta oficina surgiu a partir das constantes queixas
dos pacientes em relação ao já
comprometimento do total de seus salários
em saldar dívidas, tais como, juros de
cartão de crédito, prestações
de compras de bens e de consumo.
Esta oficina visa
o planejamento financeiro dos pacientes, visto
que observamos na clínica os que apresentam
compulsão para o jogo, bebida, drogas;
os gastos excessivos dos que se encontram em fase
de mania no transtorno bipolar, os que usam grande
parte de seu dia no consumo "midiático",
permanecendo de 6 a 8 horas diárias em
frente à TV, que reproduzem nas falas o
medo de sair de casa por conta da violência,
veiculados intensamente pela mídia.
Como a televisão
é um consumo da totalidade dos pacientes
pesquisados, discute-se com eles qual o nível
de identificação, o que ele produz
e reproduz na sua fala e que conteúdos
estão mobilizando em suas próprias
vidas.
A partir dos dados
obtidos, os pacientes são convidados a
elaborar projetos de reorganização
financeira. Constantemente o próprio paciente
se dá conta da necessidade de frear seus
impulsos consumistas. Há os que se propõem
a sair de casa com o dinheiro contado, outros
decidem mudar o percurso, evitando passar por
lojas, bancas de revistas ou supermercados. Há
aqueles que decidem reduzir o tempo de exposição
na tv, substituindo-o por horário de leitura
e, assim por diante. A importância desta
oficina reside na conscientização
do paciente em fazer uma leitura crítica
dos meios e, quanto àqueles que são
atingidos de alguma maneira, em buscar propostas
de controle mais sistemático.
É preciso
pensar que cada proposta terapêutica leve
em conta o sentido que as atividades estão
exercendo na vida destes pacientes. Observar quais
são as bases que governam suas rotinas,
qual a direção se deseja dar a eles,
inclusive a de seu tratamento.
Oficina
de Movimento:
Tem por objetivo
estimular a realização de atividades
corporais (caminhada, conscientização
corporal e respiratória, movimentação
corporal global, relaxamento), assim como o equilíbrio
geral do organismo utilizando espaços públicos
(atividade externa) próximos ao HSPE, como
o Parque Ibirapuera ou o Clube Esportivo Municipal
"Mané Garrincha", a fim de incentivar
e facilitar o acesso a recursos comunitários
diferenciados, propiciar o contato com a natureza,
e proporcionar formas de atendimento que não
se limitem ao espaço hospitalar.
Desta maneira,
as atividades desenvolvidas pela terapia ocupacional
no HD procuram se utilizar também dos vínculos
sociais com o incentivo ao desenvolvimento das
potencialidades internas, a fim de manter o paciente
o mais próximo da comunidade, através
de uma abordagem socializante e humana.
Grupo do voluntariado
Coordenado por
voluntários que desenvolvem atividades
artesanais. Ocorre duas vezes por semana com duração
de uma hora e meia. A participação
dos pacientes é espontânea e todos
são convidados a realizar um trabalho.
As propostas são trazidas pelas voluntárias.
Quando o projeto envolve a compra de materiais,
os pacientes se organizam e decidem quem irá
providenciar o material.
O objetivo desse
grupo é o de desenvolver a troca do saber.
Ao paciente tem sido
dada a oportunidade de experimentar o aprendizado
de artesanato envolvendo uma gama extensa de materiais.
A importância destas atividades reside no
fato de trazer às pessoas a vivência
de atividades que estão sendo cada vez
menos valorizadas por se tratarem de atividades
manuais, numa sociedade cada vez mais tecnicizada,
informatizada. São atividades que fizeram
parte da formação de outras gerações.
Em tempos atuais,
a formação de ONGs e o serviço
de voluntariados têm marcado uma presença
significativa na sociedade. São pessoas
com conhecimentos e formação diversificados,
tais como, artistas plásticos, músicos,
atores de teatro.
Os voluntários
no HD são possuidores de habilidades e
conhecimentos diversos como: tecidos, papel, materiais
plásticos, madeira, cerâmica, e ainda
dança, música, poesia e outros.
Nessas atividades, o propósito é
o de ensinar o grupo de pacientes a confeccionar
uma diversidade de atividades: bonecos, trançagem
de fios, corte-costura, embalagens, painéis
e colagens ou então realizar trabalhos
corporais, trabalhar com textos da literatura
e da poesia e ainda usar a música como
forma de expressão.
Grupo de música
Dirigido
pela Terapia Ocupacional com a colaboração
de um voluntário. Ocorre uma vez por semana
com uma hora de duração.
A música
é linguagem universal de sentimentos, registro
de memória e está presente nas ações
dos seres humanos como importante veiculo de comunicação".
O contato musical
no grupo por meio de sons, tons, ritmos, melodias
e movimentos, permite ao paciente aprender a ouvir,
entoar a voz e conhecer instrumentos.
Para dinamizar
o trabalho, optou-se em dividir a oficina em quatro
módulos, com duração de um
mês cada um. Os módulos são
divididos na seguinte forma: cantigas de roda,
música popular brasileira, cantor específico
e músicas de escolhas dos próprios
pacientes.
No primeiro instante
orientamos sobre o tema a ser trabalhado no mês,
discutimos as opções para cada um
e escolhemos as quatro músicas que farão
parte dessa etapa. Serão abordados assuntos
sobre o que o título, verso ou palavra
da canção possam representar para
cada indivíduo.
O ambiente
de relaxamento que esta atividade proporciona,
colabora para a desinibição de alguns
pacientes, o que facilita a interação.
A receptividade
desta experiência mostra que a diversidade
das linguagens proporcionadas no programa de tratamento
abre um importante espaço de manifestações
de subjetividades, habilidades e conhecimentos.
Atualmente contamos
com um musicoterapeuta e um voluntário
que realiza atividades musicais, as quais serão
descritas em seguida:
Musicoterapia no Hospital-Dia
A musicoterapia
no Hospital-Dia, começou a partir do segundo
semestre de 2002. Sendo realizado com um grupo
de dez pacientes, que foram indicados pela equipe
multidisciplinar do HD.
A musicoterapia
tem como objetivo melhorar a comunicação
dos pacientes, estimular a relação
interpessoal e a motivação e auto-estima,
que de modo geral, encontra-se baixa.
O trabalho é
realizado semanalmente com duração
de uma hora e trinta minutos. A sessão
distribui-se da seguinte forma: aquecimento corporal
com técnica de respiração,
seguindo para atividade musical, em seguida é
realizado o fechamento da atividade com a verbalização
de todos os pacientes.
Utilizamos o modelo de
musicoterapia de improvisação, recriação,
e construção de instrumentos. Material
utilizado: violão, instrumentos de percussão,
aparelho de CD e sucata.
Grupo de Dança e Movimento
Este grupo
é dirigido por duas voluntárias,
psicólogas com formação em
trabalho corporal. A oficina de dança e
movimento teve início no mês de março
de 2002, é aberta a todos os pacientes
em tratamento de Hospital-Dia e aos participantes
do programa de Reabilitação Psicossocial,
tem freqüência semanal e duração
de uma hora, durante a qual os pacientes são
orientados em exercícios de alongamento,
consciência corporal, ritmo, danças
folclóricas em roda e movimentos espontâneos.
Dá-se ênfase ao trabalho com danças
e músicas folclóricas de diversos
países e regiões do Brasil. Exercícios
de relaxamento ou trabalhos com a respiração
encerram a aula deixando viva e consciente a sensação
de bem-estar proporcionada pela dança e
pelo "estar com o grupo".
Ao utilizar o recurso
da dança com sua riqueza de possibilidades
dentro de uma abordagem biopsicossocial, a oficina
pode promover:
• Atividade
física: alongamentos, exercícios
de percepção corporal e a própria
dinâmica da roda e da dança permitem
que o paciente entre em contato com seu corpo
e aprimore sua condição física.
• Consciência
corporal e identidade: estes mesmos exercícios
e a nomeação de ossos e musculatura
resultam na percepção da superfície
e formatos do corpo como limite entre eu-mundo
e no auxílio ao resgate da identidade,
prejudicada rios casos de esquizofrenia e da maior
parte das psicoses. Silva Filho'8' descreve o
enfoque de Schneider, segundo o qual, "o
que caracteriza a psicose é o "vazamento"
da subjetividade, quando se desfaz a linha que
circunscreve o espaço virtual e o separa
do espaço real.". Nesta oficina a
pele é compreendida como linha ou melhor,
como marco divisor entre o espaço subjetivo
interno e o exterior. Denys-StruyP2, fisioterapeuta
belga que desenvolveu o método GDS, uma
forma de compreensão psicocorporal do sistema
locomotor afirma que: "Pensar, visualizar,
perceber uma ossatura, isto é, nossa estrutura
óssea, nosso suporte, constitui um processo
que nos consolida psicocorporalmente, sendo essencial
para definir a forma, para vivenciar-se como um
ser ativo e criativo." Tal
frase nos dá uma dimensão da importância
do trabalho corporal dentro da grade de tratamentos
psiquiátricos.
• Contato
com emoções: muitas vezes sentimentos
e lembranças são evocados pêlos
exercícios e compartilhadas com o grupo.
• Espontaneidade
e criatividade: mais conscientes de sua estrutura
corporal, os pacientes são incentivados
a coreografar a partir da música. Algumas
vezes eles propõem passos por eles mesmos
criados, ou trazidos de experiências anteriores
em bailes e aulas de dança. Estes exercícios,
aliados ao dançar livremente no final de
algumas aulas auxiliam, pela via da dança,
o desbloqueio da espontaneidade e criatividade
vistas como fundamentais para a recuperação
da liberdade, autonomia e capacidade em resolver
seus problemas do cotidiano.
• Socialização:
a interação dos pacientes dentro
da roda, ou em exercícios em dupla, a percepção
de semelhanças e diferenças entre
o próprio ritmo e o do grupo possibilita,
pelo intermédio das danças circulares,
a diferenciação do paciente como
sujeito separado do grupo em que está inserido,
ao mesmo tempo em que ele se percebe participante
do grupo, diminuindo sua sensação
de isolamento. Vale ressaltar que as danças
circulares são uma forma de manifestação
cultural de muitos povos e têm a função
de confraternização e celebração".
Com este
formato, esperamos propiciar aos participantes
uma nova experiência de inserção
em grupo, retirando-os do isolamento social em
que, muitas vezes, chegam ao tratamento, devolvendo-lhes
a experiência da liberdade e potencializando
(somados aos outros grupos que acontecem no HD)
o desejo e os recursos do paciente em seu retorno
à rede social.
Jogos dramáticos:
Coordenado pela
auxiliar de enfermagem, o grupo é semanal,
com duração de uma hora e meia.
O objetivo
deste grupo é que o jogo, a dramatização
e o como-se são liberadores de energia,
estimulam a comunicação e a espontaneidade.
O jogo dramático
foi introduzido como um recurso para atuar em
dinâmicas de grupo. Está embasada
na metodologia psicodramática e é
utilizada tanto para o aquecimento específico
de um grupo ou para a abordagem específica
de um tema apresentado pelo grupo. Há uma
infinidade de propostas, tais como as mencionadas
por Rejane Sarazanas
• os
jogos de faz-de-conta, que incitam a imitar uma
ação e que preparam o advento da
ação simbólica;
• os
jogos dramáticos, que se apóiam
em temas vividos;
• os
jogos de devaneio, que tranqüilizam e dão
segurança
• os
jogos musicais que permitem iniciativas e tentativas
pessoais.
• os
jogos de identificação, que ajudam
a se situar, a estruturar a personalidade.
Grupo
de Informação:
Demos início
a este grupo através do convite da equipe
multiprofissional que se instalava no Hospital-Dia:
terapeutas ocupacionais, enfermeiras, médicos
por ocasião da sua inauguração.
A princípio
tentávamos trazer para o grupo, que oscila
em número de 10 a 15 pacientes, assuntos
que preponderavam em nossas orientações
na prática diária, de ambulatório
e enfermaria.
Consideramos então
importante discutir e mais imperioso ainda, informar
nossos pacientes sobre assuntos que cercam seu
dia-a-dia: aposentadoria, licença médica,
readaptação funcional, transferência
de local de trabalho, rotinas internas deste hospital,
obtenção de benefícios entre
outros assuntos.
Com o tempo, este
grupo além de informa-los foi também
se tornando um "facilitado!"" em
trazer sugestões e demandas dos pacientes,
uma verdadeira "assembléia".
Realizamos atualmente
este grupo às quintas-feiras das 10h-11
h e em algumas oportunidades, contamos com a participação
da enfermagem.
Grupo de Cidadania
O grupo tem
como objetivos: desenvolver uma consciência
melhor de identidade social e exercício
de liberdade e responsabilidade. Ocorre com a
freqüência semanal e tem duração
de uma hora, é dirigido por uma auxiliar
de enfermagem.
A cidadania
pode ser entendida como a síntese dos direitos
conquistados pelo homem e de seus deveres para
com o Estado. No Novo Dicionário Aurélio,
cidadão é o indivíduo no
gozo dos direitos civis e políticos de
um Estado, ou no desempenho de seus deveres.
No HD e no
PR o que fundamentalmente importa é que
todos os pacientes reconheçam a si próprios
como cidadãos e se conscientizem da importância
do exercício da cidadania. Lutar contra
o preconceito e o estigma trazido pela doença
mental é uma das propostas do grupo de
cidadania. Este grupo estimula discussões
a respeito deste tema, assim como de outros concernentes
ao papel de cidadão. Trata-se de um grupo
psicoeducacional,
A educação
é um dos fatores mais significativos para
promoção da saúde.
Uma das propostas
do grupo é de levar em conta e refletir
sobre as relações entre a pessoa
e o meio social, cultural e todos os aspectos
envolvidos na formação de hábitos
e atitudes que fazem parte de seu cotidiano, desenvolvendo
uma consciência crítica sobre os
direitos e deveres de cada um.
O grupo é
planejado em torno de dez encontros com seis temas
previamente estabelecidos, e 4 a partir de temas
propostos pelo próprio grupo.
A noção
de cidadania começa na própria família,
com o exercício de deveres e direitos,
o grupo sempre estimula a discussão a respeito
do conceito de liberdade na relação
com o outro. A partir da família a noção
de cidadania vai-se estendendo as relações
de amizade, as relações sociais
na comunidade em que vive, no bairro, na cidade,
no estado e no pais. Além destes aspectos,
a cidadania também é discutida nas
relações de trabalho, na conscientização
de direitos e deveres no ambiente profissional,
e como o trabalho está imbricado com a
família e com o ambiente social. É
também importante ressaltar que o exercício
da cidadania contribui para uma melhor auto-estima,
na medida em que possibilita a construção
de uma imagem positiva de si, de respeito próprio,
reconhecendo sua capacidade de escolha e de realização
de seus projetos.
Consideramos
também importante compreender o conceito
de justiça, e a adoção de
atitudes de respeito pela diferença existente
entre as pessoas.
Estimulamos
também a valorização do diálogo,
ressaltando a importância em aprender a
ouvir e rever pontos de vistas.
A Oficina de Poesia
Esta atividade
foi criada em novembro de 2000, dirigem este grupo
uma médica residente e um filósofo.
São encontros que duram em média
duas horas e meia e tem como objetivo geral, fazer
com que o participante assuma uma postura de poeta,
conseqüentemente, o objetivo particular deveria
ser a realização dessa utopia: fazer
com que o participante antes de ser um 'poeta'
propriamente dito, aceite o convite ao devaneio
das palavras.
Esta Oficina
foi inicialmente prevista para ter dez encontros
que durassem aproximadamente dois meses. No término
destes dois meses, houve um pedido em massa por
parte dos participantes para que nós continuássemos
o trabalho: o entusiasmo por parte dos participantes
é, sem dúvida, a fonte das nossas
forças para poder, ainda hoje, realizar
este trabalho. A oficina dos dez encontros consistia
em apresentar ao participante uma folha de papel
contendo um número significativo de poesias
(imagens isoladas ou por vezes todo o poema) para
que fosse feita de início uma leitura em
conjunto pelo diretor dos encontros. E recomendado
ao participante que durante a leitura tente fazer
suas, as imagens do poeta, que tente viver as
imagens tal como o poeta as oferece, e assim,
vá marcando aquelas que realmente dizem
respeito a ele ou aquela que ele gostaria de ter
escrito. Num segundo momento terminada a leitura
em conjunto, ele passa a escrever e desenhar sobre
aquele trecho, palavra, verso ou mesmo o tema
geral. Terminada esta segunda etapa, iniciamos
a terceira e última a qual chamamos de
compartilhamento dos trabalhos em grupo. Ou melhor,
tendo todos os participantes terminado de escrever
e desenhar, um primeiro começa a ler em
público o seu trabalho e logo na seqüência
mostra o seu desenho para a turma, ou vice versa.
Neste ínterim, permitimos que todos os
-participantes façam perguntas ou teçam
algum comentário sobre o trabalho do colega.
Em resumo, a Oficina tem três momentos sendo
o primeiro é o da leitura, o segundo o
da escrita e do desenho e o terceiro o do compartilhamento.
A Oficina dos dez encontros foi repetida diversas
vezes, a ponto de ultrapassar em muito nossa expectativa
inicial. Vários participantes chegaram
a repetir o mesmo encontro. Tivemos que nos flexibilizar
e ao invés de trazermos muitas possibilidades
de escolhas, decidimos por oferecer menos poesias
e aproveitar o tempo excedente para comentar melhor
os trechos. Vale dizer que temos participantes
os quais desde o primeiro encontro, até
hoje, se fazem participantes profundamente presentes
e interessados.
Os motivos
ou as causas desta Oficina já podem ser
vislumbrados: estamos desenvolvendo este trabalho
numa instituição psiquiátrica,
logo, acreditamos que seja possível não
uma "cura", mas a libertação
do psiquismo no engajamento do ser imaginante
(na verdade, carregamos a firme convicção
de que um paciente psiquiátrico possa vir
a melhorar sensivelmente, mas isto à sua
maneira). Graças ao frutífero convívio
com a doutora Sylvia, pudemos vivenciar a realidade
de que é no próprio contato com
o paciente (no nosso caso com o participante e
deste com o poeta) que podemos experimentar o
sentido forte da palavra encontro. Portanto, o
que se pretende fazer experimentar em nossos encontros
é justamente um verdadeiro encontro, que
por sua vez transborda o eu, destampando o eu
e o tu na sua força individual, para preencher
com uma repercussão, a vida inteira. Seu
prolongamento e acabamento natural estão
no cosmos, donde um fenômeno cósmico
que é bastante anterior à clássica
dualidade do eu e do universo, da expressão
e do exprimido. E a vida afetiva que se afirma
no encontro, as alegrias e as dores encontram
seus sentidos no fenômeno da repercussão,
ou melhor, no eco que elas determinam nos seres
humanos. Aqui, o individual é sobrepujado
pela relação inter-humana, que na
verdade nos revela o sentido mesmo do humano.
Como já
notamos, a intenção deste nosso
trabalho é incutir no leitor de poesia
a consciência de poeta. Mas para que fazer
de uma pessoa, qualquer que seja, um poeta? Graças
às forças implícitas na leitura
apreendemos um matiz de orgulho naquele que se
apropria do que não é seu. A liberdade
colocada no corpo da linguagem fez com que nos
nossos dias a poesia surgisse como um fenômeno
da liberdade. O leitor é levado a acrescentar
os seus próprios devaneios aos do autor.
E se escutamos os poemas como palavras ditas pela
primeira vez, a poesia se torna um maravilhamento
ao nível da palavra (na e pela palavra).
Assim, é a sutileza de uma novidade que
reanima as origens, a novidade de criação
advinda de uma imagem feita nossa e que nos enseja
ir além, renova e redobra a alegria de
maravilhar-nos. Esse maravilhamento está
associado à alegria de falar. O ser novo
que é o homem feliz, é o homem da
palavra nova, da palavra que não exprime
projetos, idéias, sensações,
mas que tenta ter um futuro. A verdadeira intenção
deste trabalho é, enfim, fazer com que
cada participante receba à sua maneira
o poder cósmico da meditação
ou do devaneio. Com a ajuda do poeta, eu poderia
viver a intenção mesma da poesia,
pois seria bem aí nesta intenção,
no seu ápice, no topo da imagem, que as
imagens se fazem comunicáveis.
Seria no
mínimo elementar o benefício ganho
de uma observação ingênua
do próprio mundo. Este mundo seria digno
de ser habitado, faríamos deste mundo por
vezes tão contingente, a nossa casa, estaríamos
em casa no mundo! Neste espaço re-valorizado
o homem e o cosmos permutam suas qualidades. Quer
queiram ou não, moramos todos em uma casa,
moramos todos na casa do mundo, há, sabemos
bem, um tom na relação da casa habitada.
Dizem mesmo que a personalidade de alguém
é a sonoridade própria da pessoa.
Em nossa Oficina, propomos que haja momentos em
que falemos de casa para casa na grande casa do
mundo. Para nós existe muito sentido em
se falar de uma reinserção do homem
no mundo, mas não jogando-o ou lançando-o
no mundo, mas sim recolocando-o nele como numa
casa, num ninho... Seríamos recompensados
dos nossos esforços se pelo menos conseguíssemos
fazer dos momentos que nos são oferecidos,
instantes onde os encontros que propomos pudessem
ter reencontrado o sentido forte do termo. O sentido
forte traz a novidade do ser humano ser relativo
ao próprio humano. Como diz a epígrafe
do Tratado de Psicopatologia de Minkowski: "Pois
que o homem é feito para tornar a buscar
o humano".
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